Aprendendo com o Japão

Tenho um amigo que, ao se deparar com algumas complicações da vida, resolveu sair pelo mundo e aprender o que nenhuma faculdade ensina. Queria voltar mais forte e mais sábio e ficou um ano viajando pelos lugares que tinha em sua lista de “conhecer antes de morrer”.

Eu fiquei aqui quase morta de curiosidade enquanto ele me mandava uns emails, de vez em quando, cada qual de um lugar mais instigante. Quando ele finalmente voltou ao Brasil, eu praticamente o obriguei a me fazer uma visita e contar tudo. Ficamos horas conversando e, entre uma história e outra, chegamos àquela que tanto me tocou que foi ela a eleita para meu blog.

Ele ficou um mês no Japão, percebendo que ali sim, a comunicação era peculiar. Longe das grandes cidades, se quisesse comer frango tinha mesmo que bater os braços dobrados nas laterais do corpo.

Ainda assim, em uma cidade pequena, encontrou uma recepcionista de hotel com quem podia conversar em suficiente inglês. Ela lhe ensinou como chegar ao restaurante mais próximo e lá foi ele, gastar as palavras que já tinha aprendido até então.  Depois de matar a fome, ele sabia pedir a conta, pelo menos. Mas não sabia o que dizer quando percebeu que aquela veio muito alta. Conferindo o que dava, os números não batiam. Ele achou que tinha bebido demais e pôs o prejuízo no custo geral do aprendizado, voltando ao hotel sem mais preocupações.

No dia seguinte, já fazendo o check-out, a recepcionista perguntou se ele havia comido no restaurante indicado na noite anterior e, como ele dissesse que sim, ela pegou um envelope e lhe entregou, explicando que os donos haviam deixado para ele. Era o troco. Ela explicou que eles perceberam o erro quando fechavam o caixa e, então, durante a madrugada, saíram pelos hotéis das proximidades procurando “um estrangeiro alto, de cabelos escuros muito curtos”, até acharem o hotel que confirmasse que tinha um hóspede com tais características.

Meu amigo, ao me contar essa passagem, estava emocionado. Eu me arrepiei e, depois de uns segundo tentando absorver o que acabara de ouvir, perguntei algo que ficou sem resposta: por que nós, brasileiros, não podemos viver assim?

Comments
  1. 1705 dias ago

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