Turismo, história, encantamento e medo.

Conta-se que a história da Hungria começou no século IX, quando os magiares – tribo nômade vinda do oriente – fixaram-se temporariamente na bacia do rio Tisza, depois em torno do lago Balaton e, mais tarde, onde hoje é o leste da Áustria e sul da Eslováquia para, finalmente, ocuparem a região dos Cárpatos.

Esse também é o roteiro contado no ônibus de turismo de Budapeste, que vai contando grandes passagens dos húngaros e acontecimentos que moldaram essa bela cidade através dos tempos. Pessoalmente, eu fui levada à Budapeste por dois motivos: Os Meninos da Rua Paulo e a Segunda Guerra Mundial.

O livro de Ferenc Molnár é um clássico da juventude e retrata o dia a dia de alguns meninos da cidade nos idos  de 1889. Minha filha e eu lemos o livro com tanto afinco e emoção, que fomos pesquisar mais sobre o idioma de origem (o húngaro, por ser diferente de todos os outros idiomas conhecidos, exceto finlandês e estoniano, já recebeu a alcunha de “túmulo do pensamento”), sobre o autor, o país… até que chegamos na existência de pequenas estátuas em homenagem aos personagens, nos arrebaldes de Budapeste. Pronto, já sabíamos o destino das proximas férias!

A Hungria é longe do Brasil, tão longe que exige, no mínimo, uma conexão. Como isso é coisa que eu evito, fiz um roteiro com paradas estratégicas em lugares que queria conhecer. E já que a Guerra era um dos motivos, viajamos por Frankfurt e fomos parar em Nürnberg com o propósito de conhecer a Sala 600, onde ocorreram os julgamentos dos nazistas acusados de crimes de guerra. O lugar dá arrepios e tem um museu lindíssimo e bem organizado, que é uma aula de história imperdível, acrescida do que eu mais gosto, que é um pouco de filosofia sobre a raça humana, tão esperta pra umas coisas e tão primitiva para outras.

Após a visita ao museu, fechamos o ano em companhia de amigos brasileiros que toparam nos acompanhar em parte desse roteiro bélico-literário. E  os alemães são bons de ano novo! O clima frio não atrapalha em nada a festa na rua com  fogos de artifício e gente bebendo vinho na garrafa. Foi muito divertido!

jantar com amigos no restaurante Padelle d’Italia: italiano na Alemanha

No dia seguinte, saímos cedo do nosso hotel Agneshof, no coração da cidade medieval, e observamos que a cidade estava cheia de turistas zanzando pra lá e pra cá (só um turista mesmo pra cevantar cedo no dia 1 de janeiro, com -2ºC ). Chegamos à rodoviária para pegar um ônibus da DeutschBahn, que nos levaria até Praga (República Tcheca). Desde criança, eu tinha muita curiosidade para saber o que teria por trás da Cortina de Ferro. Pois agora eu ia ver.

Praga é uma cidade linda, sendo que a praça da cidade velha foi minha descoberta preferida, com a torre do relógio astronômico. A Ponte Carlos, passagem e parada obrigatória, tem tanta história que não cheguei a aprender metade. Tão apinhada de turistas dia e noite que meu guia indicava que o horário perfeito para uma foto sem gente no meio era… de madrugada. Minhas fotos todas têm muita gente.

Praça da Cidade Velha

Finalmente, no Dia de Reis, pegamos um trem para quase sete horas de viagem até Budapeste, meu principal destino. Depois de muita pesquisa, concluí que esse trem diurno era mesmo a melhor opção, considerando custo, tempo, segurança e, claro, a aventura de ver os países ficando para trás. Não paramos para ver, mas é fato que atravessamos a Eslováquia!

Chegando em Budapeste numa estação de trem meio escura, muita gente oferecendo “táxi”, mas depois de falar em inglês com o policial (vai tentar isso na Estação da Luz em SP!), chegamos bem ao metro e por fim à Deak Tér (tér é praça) no coração da cidade, perto de tudo, em frente à estação central do metrô. Melhor impossível. Escolhi um hotel de luxo, de rede internacional (Kempinski), maravilhoso, mas notei que esse tipo de hospedagem pode muito bem ser substituído por pequenos hotéis familiares, que oferecem mimos como máquina de café no quarto e  pessoalidade. No meio de tanto glamour, não consegui conversar com ninguém, por mais que os funcionários ultra bem preparados falassem coisa de 11 ou 12 idiomas…

Mas Budapeste é pra conhecer, não pra conversar, então lá fomos nós! No ônibus “hop-on-hop-off” que eu recomendo muitíssimo, fomos ouvindo sobre o país e sabendo um pouco mais sobre a Citadela, o Castelo de Buda, as termas do Hotel Gellert, o Museu Nacional. Sabendo e marcando pra conhecer bem no dia seguinte.

Na Vaci Utca (utca é rua) tem de tudo, de moda a restaurantes, de joias a quinquilharias. Conheci o dono de uma loja de lembrancinhas que gosta de conversar com turistas (ninguém é de ferro) e contei o que estava fazendo lá. Ele contou que existem aqueles que entram, compram um ímà de geladeira e vão embora, e aqueles que puxam papo, perguntam sobre o país, querem saber detalhes, assim como eu. E ele tinha orgulho em falar sobre a terra magiar.

muitas lembrancinhas!

Além disso, mais um livro ocupava minha mala de mão e, lendo “Doze Dias – A revolução de 1956″, me sentia no meio da história, passando por onde passaram os senhores da guerra e os potentados do Kremlin. Fui conhecer o museu “Casa do Terror”e, esse sim, um dos mais belos, bem montados, ambientados e assustadores museus que já conheci. Contando o horror que se abateu sobre a Hungria no período entre a Segunda Guerra e o jugo comunista, passando pelas câmaras subterrâneas de tortura, o lugar é o símbolo de tudo aquilo que a humanidade deve evitar.

Fiquei muito emocionada ao passar pelas salas de TV que mostravam as tropas alemãs, depois as russas, depois os depoimentos de sobreviventes do nazismo e do comunismo. Fiquei pensando no quanto meu jovem país ainda tem que aprender e como está fazendo errado e como está tomando os caminhos da barbárie, num misto de corrupção, ignorância, abuso de poder, ganância e desordem. Tudo que levou a Hungria (e tantos outros) ao inferno. Tive medo.

Casa do Terror – excelente museu

E era hora de começar a voltar pra casa.

Na escala em Berlim, quase fugi do aeroporto mas, que bom que não o fiz porque ia finalmente conhecer Frankfurt. Escolhi o hotel Europa, esse sim familiar, muito perto da estação de trem, que nos surpreendeu pelo acolhimento gentil, limpeza, modernidade das instalações. Tudo de bom e perto do rio Main e do centro da cidade histórica.

Fechamos muito bem. A próxima? Não sei, mas espero que não demore.

 

 

 

 

 

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  1. 1358 dias ago

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