A Flórida como ela não é.

Que desespero me deu quando minha filha resolveu que, agora, queria conhecer Miami. O argumento era bom, ninguém pode conhecer Sogndal sem conhecer Miami, mas… jura mesmo?

Eu até acho Miami bonitinha, mas não é destino pra mim. Pensei, pensei, tentei afastar todos os meus preconceitos, arrumei um hotel diferente, aluguei carro numa locadora alemã, limitei nossa estada e lá estávamos nós, no destino preferido dos brazucas.

O hotel, praticamente caiu no meu colo e foi de muita, mas muita sorte. Escolhi um, que não respondia meus emails pedindo confirmação da reserva. Reclamei no TripAdvisor, onde o esperto gerente brasileiro do Lord Balfour estava atento e me ofereceu socorro. Cancelei o primeiro e acabei nesse sensacional hotel boutique, em plena South Beach / Distrito Art Deco – mas longe do burburinho – com serviço de praia honesto e café da manhã perfeito.

Uns passeios básicos pra minha filha conhecer a área, uma visita rápida ao antipático Miami City Ballet, um almoço à beira-mar no badalado Smith-Wollensky e depois descobrimos um pequeno restaurante-deli, a duas quadras do hotel, cujos donos eram húngaros, sérvios e romenos. Sem dúvida, as forças europeias me dominam. A partir de então, aquele era nosso destino gastronômico de toda hora. De tanto aparecer, papo vai, papo vem, surgiu ainda um alemão que, claro, me atazanou com o resultado da Copa do Mundo e, nesse clima de efêmera amizade, nós fizemos refeições leves e saborosas, num ambiente tranquilo de música suave com espírito de Velho Continente. E assim, depois de dois dias de mordomias e praia de águas cristalinas e areias brancas, saímos ilesas de Miami, com destino a Fort Myers.

A costa oeste da Flórida é outro mundo. Primeiro, tive que parar nos Everglades para meu passeio preferido, o airboat tour. Nem tanto pra ver os aligátores (que pra mim são jacarés, ou quando muito, crocodilos, mas isso é coisa de gente ignorante como eu em matéria de lagartos em geral), que posso ver todos aqui pelo Brasil mesmo. Mas o passeio me dá aquela sensação de liberdade que eu tanto persigo.

Nós, humanos, construímos uns barquinhos que se movem sobre a água por conta de uma super hélice, fazendo um barulho infernal e saímos por ali em alta velocidade. É possível que, por isso mesmo, os animais locais queiram nos comer, mas a vida não é justa e eu preferia fazer isso com minhas próprias pernas ou asas, então, já que não posso, é de airboat que me permito provar um pouco da fragilidade humana dentro do mundo selvagem. Um lugar lindo, imenso, silencioso (quando desligam o barco), quente, misterioso e úmido. O tour dura pouco, mas vinte minutos são suficientes pra me dar vontade de filosofar sobre as incríveis coisas da natureza.

OK, vamos seguindo. Comemos um burrito econômico pelo caminho e logo estávamos no próximo destino.

Fort Myers Beach é um vilarejo praiano de 7 mil habitantes de alguma forma envolvidos pelo turismo. Ficamos num pequeno motel familiar do tipo pé-na-areia que era como a casa de uma tia. Não é sua, mas pode ficar bem à vontade. O Beach Shell Inn tem cadeiras de praia, toalhas, cafeteira, microondas e frigobar, revistas, banheiro grande, tudo limpinho, assim como a piscina. Não oferece café da manhã, mas nós compramos umas coisinhas no Publix, supermercado de todas as cidades e preparávamos nossos lanchinhos no quarto, com a porta aberta para a piscina. Depois das 10pm, todo mundo se recolhe e você vai ficar quietinho também, porque vai estar morto de tanto passear na praia, movendo os pés de forma a evitar as raias, esperando o espetáculo do pôr do sol no mar, andando pela vila descobrindo lojinhas e explorando a biblioteca local.

Essa é um caso a parte. Só isso explica porque os americanos dominam o mundo. Um vilarejo minúsculo, com uma biblioteca repleta de livros de todos os gêneros, mais computadores e internet, mais exposições de artistas, mais lanchonete, mais arquitetura e arte, mais acessibilidade. Tudo isso com vista pro azul e sereno Golfo do México.

Agora as raias. De abril a outubro, elas aparecem ali pra procriar, descansar, curtir uma praia, enfim, fazer o que todo mundo gosta. Só que elas têm uma navalha no traseiro e não hesitam em usá-la pra afastar um turista desavisado que vai entrando na água loucamente e acaba pisando na cabeça da pobre, que estava ali só dando um tempo. Não são animais agressivos quando respeitados. Não tivemos nenhum problema com elas, já que andávamos arrastando os pés cuidadosamente pela areia fofa das águas rasas.

Estando em Fort Myers, esticamos 15km até as ilhas de Sanibel e Captiva, que são ainda menores e mais afastadas, sem perder nada de civilização e organização. Tínhamos esquecido no motel nossas toalhas e todos os outros menores itens de conforto, mas nada nos impediu de entrar na água e tomar sol naquele paraíso. Secamos de pé e fomos almoçar descabeladas mesmo, sem que ninguém se importasse.

Por fim, descobrimos Yolo Watersports. Um escritório descolado, misto de loja e local de peregrinação dos adeptos de um pouco de aventura. Compramos um vôo de parasail, que é aquele paraquedas que voa amarrado a uma lancha que navega contra o vento. O ponto de encontro é um guarda-sol vermelho, na beira da água, sob o qual você pode deixar apenas seus chinelos (outros pertences ficam guardados na loja). Aí você vai andando até chegar ao barco, água pela cintura e o sub-capitão ajuda você a embarcar com os demais aventureiros, quatro no total. O vôo é de dois por vez. Eu engrenei conversa com todo mundo, sob as bênçãos de um dia lindo que fazia. Nem prestei atenção em como a gente subia e descia do parasail e o casal que foi antes de nós voltou animadíssimo. Nossa vez então. A subida é rápida, mas fácil. Lá em cima, é de tirar o fôlego. Silêncio quase absoluto, só alguns ecos de gente se divertindo lá embaixo e nossa própria respiração ali em cima. Fiquei tão encantada olhando o céu brutalmente azul que quase esqueci de olhar pra baixo e ver os golfinhos! De repente percebi que eu estava ali, pendurada de biquíni num guarda-sol gigante em cima do mar e uma hora ia ter que descer pela cordinha. Achei melhor nem pensar e continuei admirando o horizonte e o momento único em que eu nos metera. A descida é fácil também, o capitão era profissional, claro, como tudo nos EUA.

Só achei que meu biquíni ia sair pelo nariz quando batemos na água, mas até isso é motivo de risada pras criaturas de coração valente e espírito livre. Descemos em paz, todo mundo se divertiu e eu, como brasileira que sou, estimulei a confraternização e daí tripulantes e turistas se abraçaram e beijaram. Até a filha do casal que estava com a gente entrou na água pra participar da beijocaria súbita que se instalou.

 

 

Dear staff from Yolo Watersports: If you have the chance to once read this, please be sure that you made the difference in our journey. We just had the time of our lives and shall be back!

 

 

Pondo fim à salgada parte da viagem, recolhemos nossa tralha, ainda demos uma última voltinha pela biblioteca e pelo centrinho comercial e rumamos para Orlando, onde Harry Potter nos esperava.

Confesso que essa parte da viagem é um saco. É como sair do paraíso a pontapés. De repente, lá estávamos nós numa super autoestrada, para 240km de trânsito carregado em direção à cidade dos parques temáticos.

Ultrapassada essa fase, chegamos ao Cabana Bay, o hotel novinho em folha de Universal Studios. Tudo irritantemente organizado, limpo, funcional e operante. Estacionamento perto e fácil, quarto gigante, banheiro confortável, ônibus privativos para ambos os parques (Studios e Island of Adventure) a cada poucos minutos. Vários restaurantes e lanchonetes dentro do complexo. Piscinas cristalinas e todos os confortos ali esperados. Apesar de rasas, acho que dois ou três salvavidas pra cada turista, como é praxe nos EUA também…

Já conhecíamos os parques, mas não a novidade de Hogsmead dos bruxos. A perfeição dos detalhes faz qualquer adulto parecer um bobão. Eu tenho certeza que o dragão que fica em cima do castelo é de verdade. Ele respira e solta fogo pela boca! Horas de fila valem a pena. Pra comprar a cerveja amanteigada também tem fila, mas é curta e o restaurante, o Caldeirão Furado, tem uma hostess bem divertida.

Dica 1: deixe pra comprar os bilhetes expressos dentro do parque. Só assim você vai ver se precisa mesmo. Nós compramos antecipadamente e o parque nem estava tão lotado. E os bilhetes não são válidos para as atrações do Harry Potter, de longe as mais concorridas.

Dica 2: estude um pouco antes de qualquer viagem. O lugar, o funcionamento, o idioma. Tive pena dos brasileiros (outros povos também, mas pra esses não ligo tanto) que não conseguiam entender a divisão das filas. Explico. Tem uma fila normal, uma fila rápida (pra quem comprou o Express Pass – bilhete expresso) e outra pra quem topa ir sozinho no brinquedo. São os single riders. Sozinho só significa que os grupos serão separados, pois os sozinhos vão “tapando buracos” nos brinquedos, pra que nenhum lugar circule vazio e, assim, a fila fica mais ágil pra todo mundo. Depois de um minuto, que é geralmente o que dura o brinquedo, todo mundo se junta de novo. Mas vi muita gente que não fazia ideia do que estava acontecendo e ficou bem ansiosa de ver a turma se espalhando, falando só português. Os funcionários do parque, quando muito, falam espanhol. Raríssimos os que falam outros idiomas. No fim dá tudo certo, mas rola uma tensão momentânea desnecessária pros incautos.

Depois, os outlets. Apesar deles fazerem parte da cultura americana e, portanto, do próprio passeio, eles são cansativos. Tem gente que passa o dia comprando roupa de marca pra vida inteira. De fato, são bem mais baratas do que no Brasil, mas tem uma turma que exagera. Como não é meu programa favorito, fomos lá, compramos o que caberia na nossa mala de bordo e nos mandamos para o centro da cidade de Orlando, onde quase nenhum forasteiro vai.

centro de Orlando

Domingo no Parque Eola, só famílias passeando com seus filhotes (de duas e quatro patas), hippongas e seus artesanatos, produtores rurais oferecendo seus doces e frutas, artistas de rua, músicos, uma calmaria só. O lago tem peixes, patos, gansos, uma visão geral prosaica, bem no meio do centro financeiro, vazio nesse dia.

 

Voltando pra casa, não pude deixar de pensar que, afinal, tem Flórida pra todos os gostos.

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