Entre São Paulo e Barça

Que dizer de um encontro de várias pessoas diferentes, até desconhecidas, que se unem em volta de uma paellera, venerando uma senhorinha catalã, de olhos azuis de bolas de gude, que resolve cozinhar pra toda essa gente?

Primeiro, os pequenos acontecimentos. Os preparativos da semana, dos quais apenas uns poucos eleitos participam, são agora relatados em detalhes ilustrados por sentimentos. Aqueles cuja tarefa foi desbravar o mercado municipal às cinco da manhã têm certa mágoa. Os outros, que se ocuparam dos vinhos finos em lojas com ar condicionado, ficam em respeitoso silêncio, jurando que da próxima vez vão ao mercado. Os sortudos que nem souberam disso tudo (como eu), só escutam atentos e solidários. O almoço mesmo vai começando com petiscos e bebidas a estimular as histórias de cada um, já que é hora das apresentações de contexto, pra gente ir vendo em que grupo vai se iniciar.

A senhorinha – d. Maria – vai contando de onde vem o dom da cozinha, o que me leva a viajar pra Espanha da minha própria família e me lembrar dos sabores entre os quais eu cresci. Um de seus filhos prepara e serve a água de Valência, que eu ainda não conhecia, não tinha bebido quando lá estive. Depois o outro, zombeteiro, pergunta por que estou falando pastoso… Através do álcool que então está no sangue, de novo me remeto às minhas lembranças ibéricas e sinto-me privilegiada por estar ali, na casa de caríssima amiga de mais de uma década, revendo e conhecendo pessoas únicas.

Pensei nas iguarias que comi em Salamanca, no Porto, em Bergen, em Ushuaia, em Praga e nas pessoas que conheci nesses lugares, sempre com uma hora de terapia em pratos ou copos. Lembrei-me da palinka que tomei numa taça de delicado cristal húngaro, tremendo de frio e de medo do terror que o leste europeu goteja no meu imaginário. Pensei no crôstoli da minha mãe, que eu como em casa mesmo.

Do torpor da tal água à emoção do “está na mesa”, muitas viagens passaram pela minha cabeça. De volta ao Alto de Pinheiros, à paella da d. Maria, agora todo mundo devidamente unido naquele espírito de amizade imediata que, estrangeiros me perdoem, só os brasileiros têm. Uma algazarra colorida com muitas risadas (porque onde tem vinho não tem tristeza) e confusão de opiniões de tantos entendidos, não sobre a comida em si, mas sobre as formas de conseguir comer mais e depois desfrutar da melhor preguiça. Até Jack, o cão, se divertia, mesmo achando que estavam todos falando alto demais.

Enquanto as horas iam passando, cada um se preparava para enfrentar uma implacável segunda-feira. Eu saí antes do café e sei que perdi parte importante do evento. Mas de uma coisa tenho certeza. Parte do afeto que estava na panela está agora comigo, em forma de lembrança, de tempero em minha vida, tal como as pitadas que d. Maria distribuiu cuidadosamente sobre sua esplêndida receita.

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