Instigante Bolívia

Eu poderia dizer que fui parar em Sucre por conta do preço da passagem e do tempo de vôo, mas estaria sendo injusta com a preciosa sensibilidade da Suzan (1) e com minha própria curiosidade errática.

Depois de saber que a quinta cidade mais populosa da Bolívia é sua capital constitucional e que, pela importância da sua história, em 1991 fora incluída no Patrimônio Mundial na UNESCO, não precisei pensar muito mais. Lá fui eu, ver de perto a Cidade Branca ou Cidade dos Quatro Nomes, árida, sofrida, orgulhosa e povoada de espíritos quechua. Tive apenas 3 dias, suficientes e incríveis.

Fiquei num hotel administrado por um holandês(2), casado com uma boliviana, e que já deixou pegadas em partes insólitas deste mundo. Ele é apenas um dos muitos europeus que vivem ou passam pela cidade, turistas, estudantes, apaixonados, perdidos, quem sabe?

Comecei pela Plaza 25 de Mayo e o bonito prédio da prefeitura ali instalado. Uma caminhada mais e estava no parque Simon Bolívar, palco das crônicas dominicais das famílias locais, aparentemente intocáveis em sua natural felicidade. Impossível não repensar nossos próprios valores, estímulos e necessidades diante de tanta simplicidade. Passei a virada do ano num bistrô alheio às festividades da rua, mas vi a festa que se formou no Centro e se arrastou até o meio do dia 1 de janeiro, embalada por uma banda de sons peculiares. Ritmo gravado na memória.

O primeiro dia do ano teve sentimentos intensos, como de hábito há vários anos. Um capítulo improrrogável e, a grande atração da cidade, ainda, devia ser visitada: o cemitério.

O Cemitério Geral é lindo, lindo de doer e chorar, lindo de encantar e amar. Imperdível. Passei lá a manhã do segundo dia do ano, sozinha nos braços dos espíritos, tentando entender mais das cores incontroláveis e imprevistas, às vezes postas à força na vida.

Olhei a tempestade que se formava e lembrei-me da praticamente antípoda Suíça, lá em 2005… pois agora, passados dez anos, eu teria uma na Bolívia.

Depois do Cemitério, fui andar pela trilha inca(3). Três horas de caminhada, morro acima e morro abaixo, com chuva ocasional e silêncios absolutos. Uma experiência que recomendo a todos que queiram pensar livremente, mas que tenham um pouco de preparo físico, roupas e botas adequadas. A trilha não é pra desavisados.

Para voltar à cidade, precisávamos sair do vale. Instalei-me no banco traseiro do 4×4 do pai da guia, ganhei um sanduíche de queijo com salada e comecei a observar que chovia, então, torrencialmente. Os vidros do carro embaçavam, a água descia com pedras das montanhas, que se mostravam como se fossem braços coalhados de veias potentes, prestes a estourar. Deslizamentos de terra barrenta. Vencemos um e, eu olhei pra baixo, pra ver que já estávamos em franca subida e, portanto, o precipício só aumentava. Eu tive medo puro, daquele que só nos resta aceitar sem gritos, sem chiliques, sem ninguém pra segurar sua mão. Um espectro que foi se aplacando quando comecei a olhar pelo espelho o motorista, um quechua miúdo, experiente e resignado, que fazia seu trabalho como se fosse o mais natural do mundo, sem nem perceber que talvez fosse mesmo. Ali, éramos nós e Deus. Chegamos, horas depois, seguros em Sucre. Eu era só felicidade e vitória, orgulhosa do feito e do aprendizado.

Acabada a jornada na cidade histórica, rumei para Cochabamba, de onde sairia meu vôo de volta ao Brasil, no dia seguinte. Tive tempo de ver La Cancha – o mercado local digno de visita por seu tamanho e excentricidade – depois, subir de teleférico ao Cristo de La Concórdia – que vale pra alguém muito curioso, mas que tenha protetor solar e disposição pra ficar na fila. Dia seguinte, aprazível passeio ao Palácio Portales, antiga residência do milionário boliviano Simón Patiño, que teve a hombridade de deixar aberta aos turistas essa herança linda. Ali tem verde, histórias e livros, além de bancos pelos jardim, onde podemos refletir sobre tudo isso.

Por fim, a Boliviana de Aviación deixou a desejar na volta mas, como tinha me levado tão bem, ficou na média.

O que importou mesmo foi o povo e seu país tão instigante. A Bolívia, definitivamente, tem meu respeito.

 

Referências:

1 – OCA Viagens

2 – Hotel Villa Antigua, Calle Calvo 237, Centro de Sucre

3 – Passeio particular organizado pelo Condor Trekkers, WWW.condortrekkers.org cujo escritório estava ao lado do hotel…

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