Para a Espanha, com amor de sangue

Desta vez comecei por Barcelona que, mesmo sem muita paixão, mesmo não sendo das minhas preferidas, não decepciona. Suas peculiaridades começam pela história e política, que são coisas pra se estudar antes de ir. Os catalães fazem questão de se apresentarem não exatamente como espanhóis, mas como povo independente da Catalunya, com seu idioma próprio, bandeira e costumes.

É como se estivéssemos noutro país, mas ainda assim na Espanha, o que já torna a experiência interessante. Surpresa mesmo, foi encontrar um vizinho de Catanduva trabalhando no hotel escolhido. Catanduva na Catalunya. Pensando bem, tem a ver! Que sorte a nossa, na primeira hora na cidade já tínhamos um amigo a indicar restaurantes, dar dicas de passeios, ajudar a olhar o mapa… e foi ótimo porque, dez minutos depois de chegar, percebi que havia esquecido minha carteira de habilitação, o que tornaria impossível a parte do roteiro que eu planejara fazer de carro pela Espanha.

OK, vamos começar de ônibus de turista, mesmo. Barcelona é grande e as atrações turísticas são espalhadas por mais quilômetros do que estamos (eu e minha filha sempre-presente) acostumadas a andar. Vimos os básicos Parque Guell, estádio do Barça, Sagrada Família, praia – sim, eu entrei na água gelada de inverno no Mediterrâneo até molhar as canelas; nada detém um turista. Mas o que nos tomou a atenção de verdade foi a Casa Batlló, incrível mostra do que um gênio da arquitetura consegue fazer quando bem financiado. Cada detalhe nos leva a pensar no capricho e na dedicação do artista.

Depois, o passeio oferecido pelo hotel, pelo Bairro Gótico e suas histórias de anjos e demônios. Nada de medo, apenas reflexão sobre os homens e suas religiões no curso dos tempos.

E assim, Barcelona estava registrada e minha ansiedade crescia na medida em que ia seguindo para a parte que mais me interessava na viagem.

De trem de alta velocidade até Madrid (AVE, uma atração por si só,  rasgando as entranhas do país), de onde pegaríamos uma conexão até Ávila.

Chegamos e já almoçamos em Los Candiles, um restaurante quase escondido numa esquina da Calle Pedro Lagasca. Ali mesmo, depois de saciar a fome com pratos quase divinos,  começaram meus sonhos, viagens ao meu próprio passado e ao passado distante quando D. Guiomar lloraba su desgraciado amor por D. Álvaro. Essa é a história que se conta da Porta do Rastro, única balconada na muralha. Fazia muito frio e eu e minha filha andamos por toda a muralha, imagina

ndo o que sentiam as pessoas que ali viveram, lutaram, amaram e morreram. Um dia basta em Ávila, mas ficamos dois, apenas perambulando e observando os séculos longínquos se apresentarem bem ali, aos nossos sentidos.

Seguimos então para Salamanca, essa sim, senhora absoluta do meu coração. Amor de sangue, de família; devo ter começado minha jornada nela, talvez há milhares de anos e nela também quero minhas cinzas vertidas,  a partir das torres medievais da Catedral, após esta efêmera vida.


A Torre de las Campanas tem um incêndio e um terremoto em sua história  (ambos no século XVIII, 1710 e 1755 respectivamente).  Suas paredes escuras, cicatrizadas, mostra-nos o quanto é possível continuar.

A Casa das Conchas desassossega pela sua inesperada vista de dentro. Do centro da casa é possível ver suas gárgulas, a fachada da universidade católica a frente e o céu aberto.

E com a fome que nasce da emoção, almoçamos no bagunçado, barulhento, apertado e deliciosamente familiar Don Quijote. Menu do dia, vinho da casa, melhor impossível. No dia seguinte, antes de partir, voltamos a olhar a Casa e fomos provar as típicas croquetas de jamón no Meson Las Conchas.

E lá vamos nós para Madrid!

A Capital e maior cidade da Espanha é simplesmente encantadora e não por coincidência é chamada de La Reina. Rainha absoluta, conta com um padrão de vida elevado entre suas ruas charmosas e avenidas importantes, ricas áreas verdes e museus belíssimos, entre eles o famoso Reina Sofia, que desta vez tive a fortuna de conhecer, graças à ordem precisa da minha amiga Sandra Morán, espanhola que se deixou encantar pelo Brasil, mas, sem perder o tom castelhano, simplesmente disse “vá”.

Eu fui e fiquei horas olhando Guernica, de Picasso. Li a história, observei os detalhes, voltei ao folheto explicativo, olhei de novo o quadro. Lindo, inquietante,  retrato acusatório de que a estupidez leva à morte e que a guerra é a maior de todas as ‘estupidezes’ humanas!

Com fome de novo, claro, fizemos nossa refeição no restaurante do próprio museu. Comi um prato de pequenas cenouras ao creme. Uma refeição leve, simples de tudo, mas que (junto com o chuletón saboreado em Ávila) garantiu a melhor parte do estômago, que é a memória.

Andamos por toda Madrid sem pressa. Apesar de termos percebido a tensão na cidade, por conta de recentes ataques terroristas na França (e a Espanha está sempre na rota terrorista), passeamos em paz pelo Mercado San Miguel, Parque Del Retiro, Gran Via. Fomos ao Barnabéu, casa do Real Madrid e a El Corte Inglês. Comemos churros com chocolate quente na Uvepan. Até à estação ferroviária fomos. La Atocha, aliás, é linda e merece uma visita, não só de chegada ou partida. Fizemos tudo o que os turistas fazem e, ao final, fomos ao aeroporto de ônibus e metrô, coisas que o transporte público do Velho Mundo permite com conforto e economia.

Já em MAD (aeroporto Madrid – Barajas), observamos o quanto a Espanha nos é familiar. Sangre de mi sangre, como diria meu intenso e acalorado avô. Obrigada, Antonio e Amália, por me passarem suas heranças pelas veias.

Olé!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comments
  1. 1030 dias ago

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