Ouro Preto e o Brasil criança

Tanto viajei, tanto estudei a história alheia e, quando fui atrás da minha própria, mal pude conter o orgulho. Meu Brasil é cheio de problemas, alguns gravíssimos, desanimadores, mas é como qualquer família e, quando retratado, dá pra ver o brilho em todos os olhos.

Brilho que já começou pelo inusitado museu à beira da sempre Estrada Real. Nunca tinha ouvido falar do tal museu, mas que surpresa! Entre milhares de long-plays, outras coisas da minha infância, da infância dos meus pais. Coisas pra contar pra minha filha. Tudo com um bom quitute mineiro, o pastel de  angu, cujo nome a mocinha do caixa traduziu para meu paulistanês como “um tipo de polenta”. Barriguinhas cheias, seguimos viagem até vislumbrar, do alto do morro, o casario branco e a torre de uma das dezenas de igrejas de Ouro Preto.

De verdade, foi aqui que o Brasil começou. De repente a criança ficou de pé e quis correr. Como qualquer povo, o brasileiro não queria viver à sombra de seus conquistadores e lutou com as armas que tinha para conquistar sua liberdade.

Quantas conspirações, conversas  entrecortadas, sinais, medo, inteligência, traição. A Casa dos Contos guarda tudo isso em suas paredes. Lindo museu, bem cuidado e organizado. Muito dinheiro passou por ali, toda a pujança da cidade que transpirava ouro, todo o sofrimento dos escravos e prisioneiros que pagaram com a vida a má sorte ou a ousadia.

Depois, agradável almoço e bate-papo no Mamma Roma, pequeno restaurante recém-inaugurado que espero que faça muito sucesso. Falando do Brasil e das próprias vidas, aprendemos sobre o cardápio, sobre as cervejas. O Urbano, que tão gentilmente nos atendeu, ainda topou posar pra foto!

E além de tanta história e gastronomia, também amor e literatura. Segui os passos da Marília, aquela, do Dirceu. Tomás Antonio Gonzaga (patrono da cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras) nasceu em Portugal e veio parar em Vila Rica a jurar amor eterno a Maria Dorotéia Joaquina de Seixas.

Ele, Inconfidente, foi preso e degredado para terras africanas, casando-se logo mais com outra amada. Ela, eternizada nos versos do poeta, imprimiu a figura de donzela abandonada e virgem até o fim da vida.

Recentes estudos, no entanto, creditam-lhe várias aventuras e guerras pessoais e até um filho ilegítimo! A pracinha onde tanto romance se desenvolvera nada me contou, mas, ao respirar, fingi que sentia o perfume das flores que o apaixonado Dirceu devia levar à sua musa.

Perto de Ouro Preto tem Ouro Branco, que eu nem sabia, achava que era piada. Existe mesmo a ali repousa a “Casa de Tiradentes” que, diz a lenda, foi esconderijo de muitos rebeldes que praticavam ali suas inconfidências e sabe-se lá o que mais. Infelizmente, em pleno feriado turístico, o que deveria ser um rico museu estava fechado e com ares de abandonado. Pena, pena mesmo. Minha imaginação teve que se virar e, quando ela acabou, resolvemos seguir pra Congonhas, berço das lindíssimas obras de Aleijadinho.

O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos é um tesouro da arte barroca, um conjunto de paisagismo, arquitetura, fé e arte que não pode deixar de ser visto. O lugar tem, ao mesmo tempo, paz e agonias, essas registradas bem ao lado da igreja, na Sala dos Milagres, através das fotografias e relatos de pessoas que garantem ter sido tocadas pela mão de Deus, de algum modo.

E por fim, Mariana.

Cidadezinha pitoresca, com lindas paisagens e o impressionante Pelourinho, bem no eixo entre as igrejas de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo.

 

Fotografadas e apreciadas, estão lá para nos fazer refletir sobre as maravilhas e as bobagens que os mesmos humanos conseguem produzir.

O passeio às Cidades Históricas de Minas Gerais deveria ser obrigatório a todos os brasileiros e todos os cidadão do mundo que gostam de aprender com o passado, desfrutar do presente e meditar sobre o futuro.

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  1. 820 dias ago
  2. 820 dias ago

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