Peter

Um dia, durante minha aula na FISK (que saudade daqueles professores de inglês e espanhol que me prepararam para conversar pelo mundo), estávamos falando dos nossos sonhos. O meu era conhecer a União Soviética, naquele período da minha juventude em que eu frequentava as reuniões dos partidos comunistas.

A União Soviética acabou, eu cresci, aprendi, joguei fora a bandeira do partido e esqueci esse capítulo da minha rebelde adolescência.

Mas a curiosidade se transmite pelo sangue e décadas depois, não é que minha filha quis ir à Rússia? A bailarina pediu uma viagem à São Petersburgo para celebrar seus 15 anos.

Escolhido um destino, começam as vontades turísticas. Moscou ou Tallinn? Se tiver conexão na Alemanha, tem que ficar uns dias. Melhor ir por outro lugar. Mas aí a conexão não é boa. Se for via Paris, também é tão bonita…. Chegar à Rússia seria mais fácil se eu não tivesse enfiado a terra do Ärvo Pärt no roteiro. Explico: uma noite eu voltava de um encontro delicioso com Laerte,  um amigo querido e, quando entrei no carro, liguei o rádio numa estação de música erudita. Já era bem tarde, aquele fog paulistano de outono, quase uma quimera de sereno da natureza misturado à poluição e luzes dos humanos. Os acordes da música atravessaram meus ouvidos e bateram no meu coração de um jeito que só quem ama música entende. Apertei o primeiro botão que vi no celular escrito “gravar” (eu estava dirigindo, muita informação) e botei o aparelho no painel, torcendo pra tudo dar certo. Era Tabula Rasa, do compositor estoniano. O celular, em modo vídeo, gravou meu crucifixo pendurado no espelho o tempo todo. Outra epifania na minha vida. Eu tinha que ir à Estônia, saber que lugar é esse que da luz a uma pessoa que junta notas assim, tão mágicas.

Tallinn e São Petersburgo, com mais alguma surpresa no meio, que eu não sou de desperdiçar conexão. Descobri que Air France e KLM são amiguinhas, iria via Paris mas pararia só na volta, em Amsterdam. Virou Tallinn, São Petersburgo e Amsterdam, já que a debutante queria também conhecer a cidade onde filmaram “A Culpa é das Estrelas” e jantar no restaurante dos personagens, o tal Oranjee (que de fato não existe).

Chegando em Tallinn, depois de muito, mas muito tempo em avião e aeroporto, fomos perambular pela cidade histórica e imaginar como seria a vida daqueles que subiam na muralha e vigiavam sua terra. Percebemos um país rico, forte, seguro e cheio de história pra contar, não sem um pouco de apreensão, pelo fato de estar praticamente encravado na Rússia, que um dia pode resolver pegar de volta o que acha ser seu…

Mas como o maior problema do turista é a fome, eu já tinha reservado, com bastante antecedência, uma mesa no pitoresco Rataskaevu16, que tem esse nome porque fica na rua Rataskaevu, adivinhem que número? Pois é, 16. Ainda bem, porque isso tornava a busca pelo lugar bem mais fácil, já que do estoniano não aprendemos nenhuma palavra sequer. Comemos comida de nível internacional, sem perder o toque da culinária local. Um ótimo começo pra nos preparar para o dia seguinte, com visita ao lindo e bem arrumado Museu do Mar, seguido de longa caminhada até o Kadriorg Park, antiga morada dos nobres que, felizmente, deixaram seu legado para deleite dos visitantes, assim como as reminiscências da muralha, onde se pode entrar e subir, como faziam aqueles que habitam minha curiosidade sem fim. Foi curta a jornada de dois dias. O país merece mais, certamente receberá outra visita minha. Seguimos para São Petersburgo.

Nada nos prepara para a volta ao analfabetismo absoluto. Embora haja placas em inglês no aeroporto, a grande maioria se apresenta apenas no alfabeto Cirílico, com letras irreconhecíveis e sons inimagináveis. Quem acha alemão difícil e húngaro incompreensível, deve ir urgente à Rússia e filosofar sobre as possibilidades da cabeça e comunicação humanas (para o bem e para o mal, que fique claro). Graças ao transporte do hotel, chegamos sem dificuldades ao Pushka Inn. Essa gracinha de hotel fica a poucos metros do museu Hermitage, da Igreja do Sangue derramado e de outros tantos marcos históricos que aceleram nossos coraçõezinhos turísticos. Rapidamente, a gentil equipe de recepcionistas, em seu inglês impecável, nos deu um mapa com todas as dicas e recomendações.

Lá estávamos nós, revivendo os sonhos de Pedro, o Grande, ao abrir sua janela para o ocidente.

A cidade é nostalgicamente linda. Embora – dizem – não seja retrato fiel do país, observar São Petersburgo torna inevitável admirar os russos por tudo o que conseguiram construir, passando por invasões, guerras, ditaduras, privações, toda sorte de adversidades em séculos daquilo que hoje chamamos de “cisões, fusões e aquisições”. Tem um pouco de tudo isso retratado em cada canto.

As magníficas Colunas Rostrais me fizeram refletir sobre a fundamental natureza. Na Fortaleza de Pedro e Paulo, pensei na inquietude humana.

O balé, no Teatro Mariinsky, deu um exemplo de como podemos nos encontrar. No Museu da Vodka, a garrafa intocada desde a Segunda Guerra, pelo medo de que os alemães tivessem envenenado seu conteúdo,  é um exemplo de como podemos nos perder.

Com tudo isso, voltei um pouco ao meu Brasil, ainda tão desorientado em sua própria história, querendo achar solução naquilo que o mundo já provou ser exatamente o problema.

Tivemos ainda o privilégio de encontrar amigos. Na viagem a Ushuaia (2013), conhecemos Irina, uma russa característica, falando inglês com pesado sotaque. Que bom que trocamos emails e fotos, porque depois da pinguineira, tivemos essa chance de reencontro e ela foi pródiga! Fizemos uma refeição no barco dos amigos dela, tomamos vodka, comemos pepinos em conserva, falamos do folclore russo e do sertanejo brasileiro. Demos risada da dificuldade de comunicação, adivinhamos palavras. Saímos de barco pelos canais da cidade e vimos o espetáculo das pontes se abrindo para os navios passarem. Voltamos ao hotel já de madrugada, quando o sol de verão ia quase nascendo outra vez. Mais uma despedida e mais um lugar pra voltar na vida. É, Salvador Lembo, o turismo é mesmo a indústria da paz.

Rumo à Amsterdam!

Apesar das boas lembranças que eu já tinha de Amsterdam e Holanda em geral, entendi porque, em 20 anos, nunca me ocorrera voltar lá. Como os amores, as cidades precisam de uma química pra nos encantar. Não era o caso.

Os holandeses são simpáticos, tudo funciona bem no país, os museus são da melhor qualidade. Os queijos são de comer de joelhos, rezando! Fomos até Haia, sede da Corte Internacional de Justiça, vimos concertos públicos de piano na estação de trem. Ficamos encantadas com o nível de entretenimento do Heineken Experience. Eu, que só gosto de vinho, quase enchi a cara de tanta cerveja! Igualmente encantadora é a visita monitorada ao estádio do Ajax, onde chegamos por uma rápida e perfeita viagem de trem.

Mas parecia que eu tinha saído de outro mundo e não estava adaptada. Não devia ter misturado tanta coisa na mesma viagem ou, melhor, devia ter aplicado o princípio básico de deixar o melhor pro final, mesmo que o melhor seja fruto apenas da sua própria expectativa.

Ainda assim, como a Holanda não é de decepcionar ninguém, voltamos de KLM, num vôo diurno que eu adoro e, depois de muita confusão com a aeromoça pra escolher duas casinhas de lembrança… ela nos deu uma terceira. Acho que pra gente sair logo de cima!

Dankjewel!

 

 

 

 

 

 

 

Comments
  1. 809 dias ago
  2. 809 dias ago
    • 809 dias ago
  3. 567 dias ago

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>