Trilhando

Eu andava de moto, até sofrer acidente de táxi e perceber que quebrar osso dói pra caramba. Fiquei com medo, achei que era bobagem, voltei a pilotar, mas o medo não foi embora. Como eu já sou bem grande pra desistir do que quiser, guardei o capacete e fui atrás de outra aventura.

Tinha que ter natureza, viagens e amigos. Tinha que ter um pouco de esforço (fosse físico ou intelectual) e bastante desafio. Muita risada e história pra contar depois. E, de preferência, nada de roupas especiais, para o espírito de liberdade atingir sua mais alta instância.

Depois de muito vasculhar e até curso de tiro avaliar, cheguei ao mundo off-road. Nem sei como não pensei nisso automaticamente, pois, lá aos 18 anos, pedi ao meu pai que me desse uma caminhonete com tração nas quatro rodas. (se eu passasse no vestibular, claro). Ele respondeu “por que diabos você quer um troço desses? vai virar sitiante?”. Eu não tinha resposta, mas tanto atormentei e, meu pai me conhecendo, me deu uma Chevy 500, que me levou a muitos lugares bacanas na praia e no campo, muitas vezes com moto e até amigos empoleirados na caçamba o que, naquela época, não era ilícito.

Como depois de decidir, não sou de demorar, logo estava eu com um Jimny e um grupo de aventureiros a sair por aí procurando estradas de terra, restaurantes no mato, sítios de difícil acesso, tudo o que eu queria.

Comecemos por Brotas. Era coincidência de muita sorte: uma cidade que eu adoro, com bom e velho amigo me esperando para o jantar e matar a saudade (1) e novos amigos me esperando pra conhecer.

O cenário era de pastos, canaviais, fazendas desativadas. Uma pousada simples, mas com o aconchego das pequenas cidades. Quedas d’água, música na praça. Boné de brinde, jeans e camiseta, tudo que ao final estaria deliciosamente imundo.

Iniciados então, começamos a ter ideias. Acho que mais de mil mensagens via celular depois, nossa primeira trilha “independente”. Turma animadíssima, rolava até dicas sobre como a mulherada devia fazer xixi em pé na moita.

Primeiro grupo voltou que era só alegria, agitando ainda mais os que ficaram para a semana seguinte, eu inclusive, com ou sem zequinha (2).

Logo chegou nossa vez. Jimnys arrumadinhos, cheios de acessórios e vontade de ver a terra. Pilotos, zequinhas, filhos, amigos, todo mundo com o firme propósito de se divertir.

Todos juntos, com pacotes de biscoitos, latinhas de refrigerantes, doces, batatinhas, parecia até festa. De verdade, era uma festa de humanos e máquinas, celebrando a sorte de estar em meio a natureza e boa companhia.

Ultrapassamos água, barro, buracos, subidas, descidas, curvas e retas.Fotografamos tudo o que nos encantava e, ao final, mortos de fome, fizemos um tumultuado almoço de Natal, já que no salão normal do restaurante eleito chovia canivetes e, então, invadimos uma área que parecia reservada e preparada pra outra festa, que não era a nossa, mas a essa altura ninguém se importava. Arrumamos mesas, distribuímos pratos, trocamos até lâmpadas. Comemos baldes de bife à parmegiana.

Depois de tudo isso, só restava a deliciosa, inexorável preguiça. Essa, no entanto,  durou só um dia, porque no próximo, lá estava o grupo trocando fotos e sugestões pra próxima aventura.

E que venha 2016, trazendo saúde, alegria, amigos e muitas estradas de terra!

(1) Fernando Negrão, colega de McDonald’s que hoje tem seu restaurante Vicino de la Nona
(2) zequinha é o “copiloto” que ajuda a passar pelos obstáculos, seja dando instruções de direção, seja abrindo porteiras…

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