Aquidauana, aqui do Brasil

Saí de um aeroporto moderno, recém-renovado e brilhando (1) e cheguei ao Mato Grosso do Sul, não artificial e agressivo quanto às grandes metrópoles, mas tampouco estropiado e espoliado quanto os rincões habitados apenas de aflição, espalhados pelo pobre Brasil. Campo Grande é apenas a primeira pitada de desafios e mistérios.

Após a estrada boa(2), vem a melhor (pra quem gosta): 55 km de terra até chegar à Pousada Aguapé, propriedade de uma mesma família pelos últimos 150 anos e hoje muito bem gerida pelo Sr. João e seus filhos, oferecendo não só abrigo, mas também conhecimento, experiências, interação com bichos e gente, tudo isso com muita afeição, cuidado e saborosas refeições.

Uma paulistana como eu, com pulmões e ouvidos repletos de fumaça e barulho, pode até entrar em coma depois de um choque desses.  Então, comecei com inocente caminhada pra ir ambientando e fui agraciada não só com a beleza bruta do lugar, mas com a afirmação do pantaneiro de que cada animal tem sua fronteira.Por que não pensei profundamente nisso antes?

Mais à tarde, na hora da pescaria de piranhas, já via como normal enfiar um pedaço de carne crua num anzol, com minhas próprias e nuas mãos. Por sorte ou azar, não precisei fazer o mesmo com a tal piranha. Elas mordem, mas não pesquei nenhuma. Fiquei ali só desfrutando do momento, até meu preferido – o por do sol, sobre o que nem tenho mais palavras, só observo.

E observei também que o tempo tem outra cadência no Pantanal.  Já na primeira noite, mais longa ali que em qualquer lugar, pude ver minha jornada como se não estivesse nela.

Tanto as viagens mudam minha vida que, quando me apercebi,  estava montada na Paraguaia, uma égua gigantesca (na minha forma de ver),  a passear sem sustos.

A brisa,  os passos vagarosos mas potentes dos cavalos, o canto dos pássaros,  as conversas indígenas , alguns olhares cúmplices e até uma suave canção chinesa, que uma das turistas, nervosa devia estar como eu, começou a entoar.

Paraguaia atravessou até  um riacho, molhando sua barriga e meus pés, e me tirou de lá com uma força que eu desconhecia.

Foi quando eu me lembrei que teria que descer dali, cedo ou tarde.

E tive, então, meu momento de cinderela pantaneira. Apesar de não ter cavalo branco, apareceu um príncipe disposto a me resgatar. Ali naquela situação,  se tivesse perguntado, eu teria respondido que ficaria em seus braços para sempre…

 

Meio tonta pelo ar puro e pela experiência, fui conhecer a fazenda com Sr. João, que gentilmente nos convidou a circular com ele. Vi um colhereiro livre pela primeira vez, voando para onde queria, sem as grades de um zoológico. Senti-me parte daquela imensidão, daquele tipo de silêncio que eu aprecio tanto.

Faltava ainda um passeio de jipe ao anoitecer e mais bichos livres na nossa frente. Pegadas de onça, olhinhos de jacarés, frutas que só as araras comem, verde, verde, verde e o rio Aquidauana formando lagoas, já juntando com as águas da tempestade. Nosso passeio foi abreviado pelas gotas de chuva, essas que mais pareciam uvas sendo arremessadas nas nossas cabeças por algum macaco irritado com tanto turista. E a água preencheu a noite.

Manhã seguinte,  de umidade quase palpável, um passeio de barco a motor para subir o rio e, para descer, só os ruídos da natureza e a observação. Eu já tinha aprendido tanto, mas o piloto Fabiano ainda me ensinou que os tolos consideram ali o fim do mundo, mas os sábios interagem e respeitam, com a inabalável certeza de que estão justamente no começo.

O sol que apareceu não fez nem cócegas no pântano que tomou conta dos nossos 55 km de volta, rumo ao asfalto. Quase me perguntei por que diabos me meto em tanta estrada inóspita. Aliás, me perguntei, voltei ao passado apavorada, prendi novamente a respiraçao. Mas depois me diverti. Pode ser sorte (tem gente que não acredita), mas meu coração valente e meu espírito livre foram devolvidos à minha casa em paz absoluta.

E o Pantanal estará sempre lá, pra mim e pro futuro de qualquer valente e livre.

 

(1) VCP – Campinas

(2) de Campo Grande a Aquidauana são 140km de asfalto, em mão dupla bem sinalizada, pela BR-262

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  1. 443 dias ago

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