Arco-íris Lunar

Este blog começou com meu lugar mais bonito do mundo. Não a melhor cidade, ou o melhor passeio, mas simplesmente o lugar que eu mais gosto de olhar, parada, só pensando ou não pensando em nada. Fui várias vezes a Foz do Iguaçu. Já voei de helicóptero sobre as cataratas, fui ao Paraguai, ao lado argentino, aos cassinos, aos passeios, às compras. Já fiz de tudo. Mas de todas as peripécias, a mais impressionante de todas, talvez por ser tão caprichosa, é o arco-íris lunar.

 

Melhor explicar do começo, pois, eu mesma preciso respirar.

Em 2011, estive por aquelas bandas pela enésima vez, mas pela primeira hospedada no Hotel das Cataratas (da grife Orient-Express, na época). Toda a graça começou porque meu quarto ainda não estava pronto quando cheguei e, portanto, fui direto pro Macuco Safári. Ao voltar, encharcada até os ossos (1), fui procurar minha mochila e o gerente, um lorde, veio desesperado dizer que minha mala havia sumido. Ora, eu não tinha mala, era só a mochila amarela mesmo, ia ficar três dias. Sob o olhar atônito dele, pedi que secasse minha roupa enquanto eu ia à piscina, de biquíni e roupão. Afinal, aquela roupa tinha que estar pronta pro jantar.

Enquanto lagarteava ao sol (e a roupa secava na lavanderia), conheci uns casais de alemães – Deutschland sempre na minha vida – que estavam ali pra comemorar 50 anos de casamento, juntos com alguns outros amigos. Eles estavam empolgados porque fariam o passeio noturno. Como eu não entendi direito o que se passava, fui me informar com o gerente, que já tinha se acalmado.

Pois eu tinha entendido, mesmo com meu alemão fraquinho. Era um passeio noturno, pelas cataratas, pra tentar ver o fenômeno do branco e delicado arco-iris da noite de lua cheia. Depois de ver aquilo ao lado de um dos alemães, que chorava abertamente de emoção, pensei comigo, até assustada: já posso morrer.

Podia coisa nenhuma, porque quero ver ainda muitas vezes. Foi só um choque. Daqueles que eu gosto na vida, que me criam perguntas e trazem respostas. E que me arrastam pro mesmo lugar outras vezes. Neste caso, literalmente, a mesma pessoa não se banha no mesmo rio duas vezes.

Tempo demais se passou até eu voltar, agora em 2016 (2). O Hotel das Cataratas passou à grife Belmond. Fui posta lá de novo pelo recente mas super amigo Salvador Lembo. Recebida por profissionais do mais alto nível, como tudo ali, estava eu de volta às cataratas, esperando pela lua cheia. Enquanto ela não vinha (e não veio na primeira noite), vaguei pelo hotel desfrutando da familiaridade e jantei delibando vinho e novidades. Confirmei mais um Macuco Safári, sabendo esse ser sempre único (o rio, lembra?) e dormi segura de que estava no lugar certo, na hora certa. Outras certezas só viriam com o tempo inexorável.

E de fato, nos dias seguintes, caminhei pela mata, remei, acompanhei os pássaros no crepúsculo (3) e, afinal, estavam todas as quedas d’água ora iluminadas pelo sol, ora pela lua, a apresentar seu singular espetáculo, que não se deixa fotografar (4). Eu tive o privilégio de viver tudo isso mais de uma vez na vida e, seja pela oportunidade,  pelo conforto, pelo despertar, pela saudade, pelo amor, pela observação, pela imaginação, Iguaçu nunca se repete a quem lhe visita.

 

(1) Macuco Safári é o passeio de barco por baixo das quedas d’água. Mal se pode respirar ali embaixo!

(2) abril de 2016, sim, eu subverti a ordem do blog

(3) trilha do Poço Preto, quase 20km de caminhada pela mata e Parque dos Pássaros, sempre um show.

(4) só consigo fotografar aquele halo branco com meus próprios olhos

 

 

 

 

 

Comments
  1. 93 dias ago

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