A Viagem e o Tempo

Muito tempo se passou desde a última vez que vi Patrice.  Idem Gisela,  que me ensinou as palavras de sobrevivência em alemão. Outros rostos conhecidos me esperavam na Suíça e, então, foi por ali que começamos.

Simples assim, voltar a um país tão lindo, apenas para rever pessoas importantes na nossa vida. Sem muitos passeios, sem correria de roteiros, sem nem sequer a preocupação de tirar fotos porque, afinal, a familiaridade dá sua benção.

Não por isso, no entanto, deixamos de ter surpresas. Fomos todos juntos à festa da cidade (Zurich), com música, comida, paisagens, gente do mundo todo.

Depois, Gisela nos presenteou com um passeio lindo por dentro da natureza, onde nos deixamos emocionar, cada qual com suas razões, mas, ambas certas de que essas oportunidades são dádivas. E não paramos de reencontrar porque pessoas sozinhas neste mundão sabem o valor desses abraços.

Na hora de ir à Itália, fiquei ansiosa por voltar no tempo e estar de novo em Bellagio, para alguns dias de dolce far niente.

Pelo caminho, fui dividindo meu encantamento com quem sabia entendê-lo. Fotografei, escrevi, sonhei, rezei.

E ouvi música, essa sim a me abalar as emoções, trazendo lembranças e enchendo meu coração de futuro, noutro espaço, noutro tempo.

O tempo é gracioso com os turistas. No avião, não voa. O tempo deixa pra voar quando estamos em terra, nos divertindo loucamente.

Por sorte, dentro da nossa cabeça, fazemos o que queremos com ele, indo ou voltando, mais devagar ou mais depressa. Nesta viagem, nos lugares onde eu já estivera, foi como se buscasse o passado para aplicá-lo ao futuro o que, não me cabendo, me obrigou a voltar à estrada, literalmente, esperando pelo que a vida reserva. Algumas placas de “PERIGO”. Outras só indicando poucos quilômetros para uma cama macia de hotel.

Neste caso, a cama macia estava no alto da montanha.

O que um turista tropical vai fazer dois dias no verão de Liechtenstein? Parece tempo demais, mas pra mim, valeu.

Eu subi a montanha de Triesen (Triesenberg, olha só, berg é montanha em alemão!), hospedei-me num hotel simples mas com uma vista de tirar o fôlego, carimbei  meu passaporte no posto do correio local (1), visitei os arredores do castelo onde os nobres moram até hoje, passeei pela capital Vaduz e fui caminhar às margens do Reno, onde descobri a Trilha dos Planetas, que é uma exposição permanente e muito curiosa dos planetas do sistema solar: são  pequenas réplicas em tamanhos  e distâncias proporcionais ao Sol,  tudo distribuído em cerca de 5km ao longo do rio.

É um passeio bacana que junta ciência e natureza. Eu nunca tinha ouvido falar dessa atração e foi uma das mais curiosas, ao lado do cemitério de Triesenberg. Esse, por sua vez, é mais um jardim arrumadinho, com lápides bem cuidadas de moradores que se foram já centenários.  Pareceu-me que, pra eles, o tempo havia sido bem generoso.

Voltei para Winterthur para me despedir dos amigos dali. Incrível como me amparam e influenciam, mesmo tão distantes da minha realidade (2).

Hora de voltar ao Brasil, ao tempo de verdades na vida e na pátria. (3)

 

 

 

 

 

(1)   o principado de Liechtenstein é o berço dos selos postais. Talvez por isso, é possível obter um carimbo e um selo especial para turistas, nos passaportes. Basta ir a qualquer agência local dos correios ou aos postos de atendimento turístico. Custam 2 francos suíços (jul2016)

(2)   Em 2005, a visita à Suíça foi fundamental nas minhas decisões para o futuro, que viraram presente e vão, devagar, ficando no passado.

(3)   Entre outras coisas, vivo o segundo impeachment presidencial da minha história brasileira. Ô, país animado, este. 

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