Aventura de Natal

De repente tem-se a ideia de sair pra almoçar com alguns amigos, não só pra aproveitar o tempo e a vida, mas, também pra comemorar o fim do ano, o dificil 2016.

Espírito natalino, amor no coração, todos saem serelepes em busca de comida e, se possível, alguma aventura.

Isso quem oferece é o Japiapé, um sítio-restaurante familiar que tem comida simples num ambiente rústico, tudo cercado da melhor natureza, com o Fernando pilotando a churrasqueira e servindo carnes com um molho que deve ser pecado.  Toda vez que vou lá me divirto, encho minha barriguinha e, de uns tempos pra cá, tenho enchido também meu caderninho.

Dessa vez, a história se superou, testando a sanidade de Carla, Leo, Lucca, Mauro, Laura e eu.

Chegando ao Japiapé, me assustei com o estacionamento. Invasão, pensei. Nunca tinha visto aquele lugar tão lotado. Inocentes, estacionamos e achamos que teria uma mesa cheia de comida pra nós. Já no salão, fazia-se o caos. Gente se acotovelando na fila da bebida, o Fernando produzindo costelas em velocidade industrial, mas insuficiente. Crianças correndo por todo lado, adultos gritando com elas e com outros adultos. Tola, fui pedir um lugar na fila, sem perceber que, naquele ritmo, eu ia acabar pastando na beira do lago, se quisesse uma saladinha. Enquanto isso, Carla sentada impassível, tentando não incomodar, levava uma bronca de outra cliente por causa do carro que atravancava a saída. Até agora, ninguém entendeu quem era quem e o carro podia até ser abandonado. Não era da Carla, portanto.

Lá do fundo, aparecem Laura e Leo, ela com um prato de abóbora e sem talheres, ele com um prato de feijão e duas colheres. Nessa hora, decidimos ir embora, porque ficar ali fazendo pressão era uma ofensa à Dona Neusa (a dona mesmo), que só precisava de um abraço, que, claro, eu dei. Esperamos os adolescentes comerem suas conquistas, coisa que o fizeram sem cerimônia ali na recepção mesmo, e fomos saindo de fininho, para não causar mais alvoroço.

Quase 3 da tarde, todos vazios de comida e ideias, lembramo-nos de um restaurante em Jundiaí, ainda a quarenta minutos de distância. A estrada é boa, o dia está lindo, a paisagem é inspiradora, vamos ao Travitália, até chegarmos lá, vai ter esvaziado e a vida volta a ficar boa, pensamos

Mais tolices. O lugar é tão bom que parece que as pessoas só chegam, não vão embora nunca. Só que começava a chover e todos que estavam sentados ao ar livre, correram pra dentro. Entramos bem nessa hora, junto com a multidão debandada pelos pingos d´água. Carla entrou na frente, cheia de esperanças. Dona Dinah (outra dona mesmo, acho), com aquela confusão, bradou “não cabe mais ninguém”. Carla saiu furibunda. Eu cheguei logo atrás e tive um acesso de riso, potencializado pela fome, que já chegava à cabeça e embaralhava a visão e os pensamentos.

Restava-nos o Graal, típico restaurante de beira de estrada que oferece abrigo sem paixão. E chovia. E nós ali, sem comer e sem perspectivas. Quase em lágrimas.

Até que Dinah veio esbaforida correndo atrás de nós, desculpando-se pelo mal entendido, explicando que aquela gentarada toda na verdade já almoçara, estavam só fugindo da chuva quando entraram no salão. Nós, os famintos, apresentávamos alguma dificuldade cognitiva. Dinah estava a beira de um ataque de nervos. Ofereci um abraço para ela também, que aceitou de bom grado.

Mais uns minutos e ora, ora, que alegria! Uma mesa bacana, arrumadinha, pronta para receber viveres da melhor espécie para um bando de famintos. A garçonete chegou e Carla pediu “polenta!”.

A garçonete perguntou “com lingüiça”? E Carla respondeu “polenta”. Nós ajudamos e Carla continuava insistindo: “polenta”.  Todo mundo se entreolhando e Carla quase gritava “polenta!”. Tudo bem, a garçonete traria uma porção generosa de polentas, afinal, devia ser isso mesmo.

Quando enfim, chegaram os pratos quentinhos e apetitosos, silêncio de túmulo a mesa até todo mundo se acalmar. A polenta tinha desaparecido na nuvem de gafanhotos (nós). Metade do restaurante já estava vazio a essa altura e então começamos a repassar nossa aventura gastronatalina.

Fui até a Dinah contar nossa epopeia até ali e ficamos batendo um papo de amigos, ah esses amigos circunstanciais, que delícia.

Tomamos nosso café em paz, resumindo o dia que mereceria este post.

Precisamos voltar aos dois restaurantes. Precisamos rir com suas respectivas comandantes.

Leo comeu feijão, Laura comeu abóbora, Carla levou bronca.

Lucca, um santo,  jogou ping-pong com Mauro em pleno deus-nos-acuda do Japiapé.

Eu distribuí abraços e, no fim, deu tudo certo.

Comments
  1. 303 dias ago

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