Na terra do sol nascente

Sempre resisti à ideia de ir ao Japão. Seja por medo, preguiça, ignorância ou dinheiro, resisti. Talvez tenha sido somente o devido tempo da vida, mas agora fui. Criei coragem e fui.

Muito planejamento,  pesquisa, li guias inteiros. Fiz até visita a iniciados (1). Queria me preparar bem para aproveitar o melhor possível da viagem ímpar. O lugar mais diferente de tudo o que eu já tinha visitado. Iria, literalmente, atravessar o planeta por turismo.

De cara, imaginei aquele meu jetlag tradicional acompanhado do momento mais tenso das minhas viagens, que é chegar do aeroporto até o primeiro hotel, seja lá por qual meio. Táxi, nem pensar, porque tenho medo de morrer. Pensei em contratar um receptivo, uniformizado, a me esperar no desembarque, com meu nome numa plaquinha. Mas isso, alem de ferir todos os meus princípios de turista, no Japão ia me custar um rim. Todo mundo com quem falei disse que era fácil. Eu até acreditava, sempre foi, mas eu, depois de vinte e tantas horas de viagem, mais conexão, mais fuso horário, não achei que seria fácil nem pra respirar. Deixei isso pra resolver quando chegasse. Por que sofrer por antecipação?

O vôo da British Airways foi impecável. De São Paulo a Londres sem nenhum desconforto, exceto pelo fato de eu ter perdido meus anéis no banheiro. Enrolei num papel pra secar a mão e esqueci lá. Corri até a aeromoça certa de que alguém teria devolvido. Não. Na distração, talvez eu mesma teria jogado fora. Ela então, uma fofa, se meteu numas luvas, deu outro par pra mim e lá fomos nós cavucar o lixo, no meio do corredor. Nada. Fui pro meu assento chorando e acordei a Laura pra me consolar. O chefe de cabine veio ver o que podia fazer, informando que, se eu quisesse reportar ao comandante, ele faria o padrão: revistar todo mundo antes do desembarque. Eu nem imagino como eles fazem isso, mas, me deu um pânico só de pensar no atraso geral que minha cabeça de vento causaria, sem contar que jamais acharíamos os anéis; me pus a procurar loucamente em todos os meus bolsos, ele desmontou meu banco pra procurar. Nada. No fim, meu pacotinho apareceu dentro da minha bota. Não sei se por mim mesma ou por acidente. Quando fui avisá-los, ganhei até abraço. De um inglês! Um brasileiro é capaz de acabar qualquer coisa com uma festa (estamos fazendo isso com o país, inclusive).

Pois bem, cheguei em Londres com meus anéis e daí pra frente era “só″ cruzar a Rússia até o Japão. Um vôo magnífico. Através da câmera do avião, podíamos ver, da nossa telinha, o que tinha lá embaixo. Nomes de cidades que nunca ouvi falar, nem saberia pronunciar. Rios infindáveis. Gelo. Foi me dando um desejo enorme de abraçar a Terra. Era o jetlag, falta de oxigênio no cérebro, certamente.

Chegamos em Tóquio, eu ainda extasiada pela travessia, tinha instruções detalhadas recebidas do hotel, sobre como chegar até ele. Parecia simples. Entrei no posto de atendimento ao turista e uma jovem nipônica falou onde eu devia comprar os passes, tanto para o transporte do aeroporto quanto do metrô. Instruções em inglês, estações bem sinalizadas, pessoas solícitas. Dali, de monotrilho até Hamamatsucho e depois linha  Oedo até Daimon (2). Em menos de meia hora estávamos em Shiodome, o bairro escolhido, às portas do prédio onde ficava o hotel (3).

Essa parte é estranha. Os endereços em Tóquio sempre incluem o nome do edifício, esse às vezes mais conhecido do que a rua com número. Então é bom prestar atenção à esses detalhes, até porque, se não for assim, nós ocidentais nem conseguiríamos ler o endereço, quando existisse. E é bom saber também qual saída da estação é preciso usar pra chegar ao destino final. Essas são verdadeiras cidades subterrâneas e algumas tem mais de vinte saídas, considerando as ferrovias e metrôs, trocando inclusive de bairros e. Depois de uns dias ali andando quilômetros pelas ruas, no frio e no meio do tráfego, percebi que as estações de Shiodome, Shimbashi e Ginza, se intercomunicavam em algum ponto. Seria como ter um túnel entre Pinheiros, Vila Madalena e Praça Panamericana. Fantástico! Apaixonei-me pelo Japão só de ver os sistemas ferroviários. Dava pra ver da minha primeira janela de hotel, e de todas as outras. Fiquei em quatro diferentes, todos com alguma vista pra alguma estação ou trilhos.

Ultrapassado o primeiro desafio, vamos ao segundo: arranjar comida. O fuso horário é implacável, tínhamos sono na hora de comer e fome na hora de dormir, mas devíamos almoçar. Geralmente, a primeira refeição de um lugar é um desastre. Laura e eu já até combinamos nunca criar expectativas para o primeiro prato. Dessa vez então, tinha tudo pra dar errado. Gastamos um tempo pra entender que os restaurantes também ficam em prédios e acabamos comendo no GLASS, no 3o andar do edifício Caretta Shiodome, que tinha desde o primeiro subsolo, só comidinhas triviais pra quem trabalha nos escritórios desses mesmos prédios. Em São Paulo, seria o paraíso dos “kilos”. Depois, no 46o e 47o andares, os restaurantes bacanas com vistas espetaculares. E não é que deu tudo certo? Sem falar inglês, o garçom nos atendeu falando japonês mesmo, nós apontamos as comidas do cardápio (tudo lá tem foto), as pessoas da mesa ao lado sabiam traduzir “pasta” e, afinal, o lugar só tinha duas opções de almoço, então pedimos uma pra cada e funcionou perfeitamente. Começamos a descobrir que o Japão tem comida de boa qualidade, não importa qual. É sempre boa.

Depois de tudo isso em apenas meio dia no país, fomos conhecer Hama Rikyu (parque do bairro que abriga uma histórica casa de chá e o ponto de saída dos passeios de barco pelo rio Sumida) e caímos duras às 17hs. Dormimos feito bebês, recarregando as energias para, aí sim, começar a turistar na terra do sol nascente.

E Tóquio é o máximo. Fomos em todos os lugares que os guias mandam e mais um pouco. Andamos em Ginza, a zona dos ricos e famosos, Shibuya com seu cruzamento superlativo, o tradicional Ueno com seu lindo parque; Roppongi, com sua torre e o Museu do Snoopy; jardins do Palácio Imperial, Tokyo Fórum, a moderníssima construção de arquiteto famoso, andamos, andamos, andamos. E a volta sempre contava com uma olhadela no relógio instalado à frente do prédio sede da Nihon TV, idealizado pelo cineasta Hayao Miyazaki. Dizem que é o maior relógio animado do mundo e toca uma musiquinha três minutos antes de algumas horas cheias do dia. Lindo, lindo, minha atração preferida (4) na cidade inteira.

Reencontramos Yuko, amiga japonesa que conhecêramos em Portugal, anos antes. Passamos juntas – mais seu marido e outra amiga – todo o dia 31, passeando e almoçando num restaurante local de sakê e comidas que nem imaginamos.

Chegava a hora de seguir viagem. Eu já tinha trocado meu voucher da Japan Rail Pass pelo passe de viagem propriamente dito na estação de Ueno. Assim, estava apta a acessar todas as estações operadas pela JR, que por sua vez opera os famosos shinkansen (trem-bala). E esses são uma viagem a parte. Eu iria de novo pro Japão só pra viajar mais de shinkansen De uma pontualidade inacreditável, aquele monstro sobre trilhos podia ser uma gueixa adormecida, de tão silencioso, além de ter um design moderno e ser muito confortável. Mantendo uma velocidade de 250km/h, chegamos rapidinho a Osaka, basicamente pra ver o aquário – que vale muito a pena – e conhecer a Universal Studios – vale menos a pena, é mais pra quem é colecionador de parques, mesmo, como eu e minha filha viajante.

De quebra, fomos passear às margens do canal de Dotonbori, procurando aquele neon gigante do esportista que representa a marca japonesa de alimentos Glico. O bairro, Ebisubashi, sozinho vale a visita, mas só conseguimos chegar lá porque eu ia mostrando a foto pras pessoas e elas iam me apontando com o braço a direção, até que achamos.

Tendo notado que ninguém lá fala inglês (se falam, não demonstram), a essa altura eu já perguntava tudo em português e eles respondiam em japonês com ótima vontade. Mais de uma vez nos viram olhando um mapa na rua com cara de perdidas e vieram oferecer ajuda, sorrindo. Em japonês.

Felizmente, de tanto pesquisar só arrumei hotéis estratégicos. Em Osaka, o Marriott das estação Shin-Osaka ficava a uma ponte de distância da plataforma dos shinkansen e, quando chegou o dia de ir à Kyoto, foi fácil.

Chegando em Kyoto, nem tanto.

A estação era tão grande (e linda) que nos perdemos antes mesmo de sair dela. No escritório de turismo, indicaram como pegar um ônibus, o que eu não gosto porque, geralmente, não é tão simples. De fato, avisaram que eu precisaria de dinheiro trocado que, naquele momento, eu não tinha. Eu ainda não estava acostumada com tanta civilização e demorei pra entender que, cedo ou tarde, todos os ônibus das linhas que me indicaram passariam pelas avenidas principais (e eu estava hospedada numa travessa delas) (5), havia máquina de trocar dinheiro dentro do ônibus e não demoraria mais de 15 minutos pra eu chegar ao meu hotel. Não fosse pela lotação, pelo calor que gente + aquecimento provocam  e pela bengala de uma velhinha que quase me derrubou no corredor, teria sido apenas mais uma viagem perfeita e rápida.

Tão rápida que chegamos antes do horário de check-in. Deixamos nossas micromalas de mão na recepção e fomos desbravar a cidade.

Pela primeira vez nessa viagem, pude ver a lua, em sua tímida fase crescente inicial. Não faltaria nada, portanto, pra Kyoto se transformar num lugar encantador. Sua história misturada à modernidade, templos magníficos, ruas vibrantes, bairros misteriosos e lugares mágicos. Rios, pontes, vales, montanhas ao fundo. Mais um lugar do qual eu não queria ir embora.

Descobrimos uma escola de cerâmica (6), fizemos nossos potes num torno, moldando a argila com nossas próprias mãos, enquanto jovens, ora com roupas de grife, ora com quimonos tradicionais, passeavam lá fora, dando uma paradinha pra olhar pela janela. Nós, artesãs de momento, observávamos os orientais, enquanto eles nos observavam. De todas, essa foi a experiência mais única e pitoresca.

 Perto de Kyoto, ainda, conhecemos Nara. Fomos até lá por mais um trem da Japan Rail, onde conhecemos três australianos, tão perdidos quanto nós. O trem local parava em toda santa cidade que tinha pelo caminho, até que os australianos ouviram, entre um aviso e outro em inglês, que o trem expresso estava na plataforma ao lado. Saímos correndo, o trem fechou as portas; voltamos correndo, abriu de novo, tornamos a voltar correndo e saltamos de uma vez pra dentro do expresso, às gargalhadas, sem entender nada, só torcendo pra que esse fosse também pra Nara, mais rápido.

Enfim, chegamos à cidade que abriga um grande parque cuja principal curiosidade são os dois mil veadinhos criados ali soltos e livres, que vêm comer da nossa mão, os biscoitinhos que compramos nas barracas próprias. Alguns, mais mansos, até se afastam baixando a cabeça em agradecimento. Os mais afoitos, correm atrás da turistada e às vezes dão até umas mordidas. Aconteceu com os australianos, que encontramos de novo na volta. Que pena! Lembrei-me do comissário da British Airways que, depois do episódio do anel, ficou papeando comigo e filosofou: algumas experiências são boas, outras nem tanto”. Isso mesmo, um bom turista deve estar pronto para o bem e para o mal, sempre aprendendo.

E já que tínhamos aprendido tanto, voltamos para Tokyo para um pouco de sonho e diversão conhecida: Disneylândia.

Antes disso ainda, Yuko voltara até nós trazendo comida caseira para jantarmos no hotel. Eu improvisei umas caipirinhas e comemos e bebemos, celebrando a chance de estarmos juntas e falarmos sobre o mundo.

Dia seguinte, Laura e eu aproveitamos dos dois parques,  Disneyland e Tokyo Disney Sea, este, novidade, só existe ali e é lindíssimo, valendo sozinho o passeio. A essa altura, a lua já se mostrava quase que por inteiro e vivemos nossas duas últimas noites com aquela melancolia de sempre, quando as viagens estão acabando.

Eu cheguei ao Japão um pouco aflita, achando que ia enfrentar muitas dificuldades. Saí do Japão ainda mais aflita, porque já quero saber quando vou voltar. Ao que parece, coração de turista é como o de mãe, sempre cabe mais um. E mundo só cresce, principalmente no coração de quem ama viajar.

FOTOS: o Japão foi o país que, acredito, eu mais fotografei. Só não ganhou da Alemanha, porque lá, fui várias vezes. Optei por adicionar esta pequena galeria de forma diferente desta vez, pra compartilhar o que mais gostei com vocês, leitores e amigos.

vista do hotel em Tokyo – há sempre uma linha férrea por perto

 

cruzamento “mais movimentado do mundo”em Shibuya

 

 

museu do Snoopy em Roppongi

 

Palácio Imperial

 

 

 

 

 

pôr do sol visto do bairro de Ginza

viajando e aprendendo: moldamos nossa propria cerâmica

 

 

 

 

bairro gastronômico em Kyoto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

super refeição em Kyoto

os cervos estão protegidos em Nara

 

 

 

 

 

lamen & yakult originais!

 

 

sim, o turismo é a indústria da paz…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

foto com “Donarudô”

 

 

 

 

 

 

Asahi – talvez a mais popular

 

the feast prepared by our friend Yuko

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(1)  Carlos Previato, nem sei como agradecer!

(2)  Há várias empresas de transporte operando trens e metrôs no Japão: Tokyo Metro, Oedo Line, Japan Rail, Kintetsu Line e outras. Antes de embarcar, pesquise seus destinos e linhas disponíveis. 

(3)  Villa Fontaine Shiodome

(4)  NI-TELE Really Big Clock

(5) Royal Park Hotel Kyoto

 (6) www.kashogama.com

 

 

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