Por perto

Muita gente me pergunta por onde andei, que não escrevi. Eu já me pego encaixando minhas fotos na minha história, ora pública, ora escondida. Andei por tantos lugares.

Alguns passeios são curtos e rápidos, mal se deixam fotografar. Não significa que sejam pequenos, ao contrário, podem ser memoráveis. Justo esses podem ser os títulos dos capítulos das nossas vidas. São só um nome e ainda assim encerram todo um feito enquanto dão o tom do próximo.

Meus recentes títulos podiam ser apenas silêncio e fugacidade. Nunca passei tanto tempo imaginando onde Deus estaria rindo dos meus planos.

ITÚ

Perto de casa, sem muitos outros atrativos que não a pracinha central com um orelhão e um semáforo gigantes.

Há também um museu e uma igreja, esses de tamanho normal e simplicidade singela. Uma cidade que abrigou minhas aflições em tantas oportunidades.

Cada foto desse lugar com seu segredo.

Posso escrever capítulos relevantes da minha história nas paredes do San Raphael, meu hotel preferido quando quero rodar menos de 100km. Por certo muitas famílias o fazem, a julgar pelas carinhas conhecidas que vemos cada vez que ali ficamos. É um lugar para famílias. Não importa se tradicionais, estruturadas, modernas. Despedaçadas, saudosas, consertadas. Não importa.

O San Raphael é lugar para um coração familiar relaxar e se divertir. De tudo o que já vivi por lá, o que ainda me anima mais é o karaokê entre os hóspedes. Um mais artista que o outro, depois de vencidas as primeiríssimas etapas da timidez, aquela TV com um microfone nos faz entender o verdadeiro significado de “soltar a voz”. A voz e a franga.

Passei a última Páscoa lá, aproveitando para comemorar o aniversário da D. Leonor (parabéns, mãe!). Não sem novidades. Foi a única vez em que tive vinho em todas as refeições, comemorando de tudo um pouco. E depois de beber o Tapada das Lebres – presente especial que me fez ver que meu Brunello pode ter se perdido na curva, junto com outros conceitos – num verdadeiro prândio de sal e açúcar, estive simbolicamente pensando em todos os renascimentos, coroações, sepultamentos, decisões, razões que quase nunca entendemos. É a permanente impermanência.

Continuemos a turistar porque filosofar é muito denso.

 

RECIFE

Não tão perto, mas, entre Oiapoque e Chuí estarei sempre em casa. Feriado de 21 de abril, Tiradentes mais uma vez na minha jornada. Curioso.

Na praia de Muro Alto, o famoso Nannai, resort pequeno e elegante, mergulhado nas tépidas águas do nordeste do Brasil. De tudo, o que mais me assombrou foi mesmo aquela água. Ouvi que nem podia ser pedagógica. “Não se pode ensinar uma criança que a praia é assim”. Como eu não gosto muito de praia, não conheço tantas, mas, de fato, aquilo não deve ser normal. É uma panela ao fogo com alguém soprando e botando ingredientes mágicos.

O mar salgado tem uma brisa e tem peixinhos coloridos e tem navios ao longe e tem pássaros voando. Nuvens branquinhas, às vezes nem tanto, dando a impressão de que aquele sol abrasador daria trégua (não deu).

Conchas, marolas, espreguiçadeiras, cocos verdes em coqueiros se fingindo de leques gigantes. Qualquer ser vivo dá uma pirada nesse lugar.

Eu dei. Quando me perguntaram, afirmei que ficaria ali pra sempre mesmo sabendo ser praticamente impossível.

Não bastasse a natureza, tem a criação humana de extremo bom gosto e esmero.

Champanhe na chegada, paisagismo detalhado,  limpeza, culinária, musica, simpatia. Aquele perfume característico de protetor solar. Aquela água límpida da piscina, refletindo luzes variadas,  vozes, risadas de genuíno deleite.

A essa altura, eu queria virar sereia. Juro, eu não tomei nada ilícito. Esse lugar é assim mesmo.

Comments
  1. 131 dias ago

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