Um Brasil – Barreirinhas

Saindo do Rio Grande do Sul com viagem marcada para o Maranhão, eu já imaginava que teria experiências muito distintas.

Milhares de quilômetros separam pessoas e coisas, vidas e sonhos, amores e sotaques, mesmo estando tudo isso dentro do mesmo país, esse “gigante pela própria natureza” que é o Brasil.

De São Paulo a São Luiz é fácil, apenas três horas de avião. Depois, mais quatro horas de estrada (1) asfaltada que, apesar de não ser uma super rodovia, não chega a desapontar. Tem uma parada estratégica para o lanche e o banheiro, este sendo o que realmente dá autonomia aos  turistas.

Chegando em Barreirinhas, aportamos noutro mundo.

A cidade começa cercada pelas dunas dos Lençóis Maranhenses. De início, senti  a montanha de areia como se fosse uma quimera enorme, a me perseguir para me engolir. Era muito vento e, em dois minutos, eu tinha areia grudada em todo pedaço de mim, inclusive nos dentes. Nesse ambiente, a primeira impressão foi ruim. Barreirinhas expõe uma incontestável miséria humana, impregnada de ignorâncias, violências e cães famintos perambulando pelas ruas.

Olhando um pouco mais de perto, surpreendo-me com a constatação de não transparecer nenhuma infelicidade ali. Ao contrário, a vida parece ter outro ritmo e propósito, qual seja da mera sobrevivência, mas que abala os conceitos de quem chega de outro Brasil. De chofre me afeiçoo aos habitantes de Barreirinhas e lamento ter tão pouco tempo para aprender o  tanto que eles devem ter para me ensinar.

Seguimos para a primeira “aula”, montados num pau de arara trés chic, administrado pela agência local de turismo (Sao Paulo Ecoturismo (2)). Chacoalhando e suando, fomos até o boia-cross do Rio Formigas.

E era assim:  os guias jogavam  câmaras  de pneu de caminhão numa curva do rio, depois despojavam os turistas dos seus bens (óculos, celulares, chinelos e toda sorte de inutilidades) e os jogavam (os turistas, não os bens) direitinho no meio da boia, para que, passado um breve arrepio inicial, mais de susto do que de frio – o rio Formigas tem águas mornas – esses desfrutassem do passeio . Sem nenhum tubarão, piranha, tsunami, rodamoinho, cachoeira, abismo, podia-se dizer que era sem emoção…mas não! Embalados pelo frescor, beleza e calma corrente cristalina, éramos só alegria. O bom dessa circunstancial informalidade é que nela são todos amigos. Enfiados numa boia prosaica, com tão pouca roupa, despimos também a alma e o coração e nos entregamos aos braços da mãe natureza, simplesmente para vivermos o momento feliz de fazer parte dela.

Ao final do passeio, nos acomodamos no simplório boteco dos guias, que descobrirmos serem todos uma só família, para merendar macaxeira frita, cerveja gelada e tiquira. Tiquira é a cachaça da macaxeira. Tomei um gole e fiquei alcoolizada na hora. Felizmente não tanto que me fizesse esquecer a tépida sensação do Rio Formigas.

O que de fato acabou com esse relaxamento todo foi a esperada aventura do por do sol nas dunas maranhenses.

O passeio da tarde era o principal, o mais famoso, o maior motivo (além daquele que tem me arrastado pela mão para todo tipo de inspirações) que nos levou até o Maranhão: o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. De verdade, é um deserto. Mas tem lagoas claras povoadas de peixinhos. A cada duna conquistada, vê-se outras tantas. Os guias sabem o caminho para as principais lagoas e levam os visitantes a atravessar sem hesitar aquelas areias escaldantes, só para acabarem em mais um oásis. O ambiente é quente, desafiador, selvagem, inacreditável. E lindo. Muito lindo. Às vezes venta forte (é isso que move as dunas) e ficamos cobertos de areia. De olhos semicerrados porque somos reles humanos a enfrentar a natureza. Tem areia na minha orelha até hoje.

Esperamos o por do sol e vimos o deserto deixando de arder para soprar, mudando de cor, brincando de aquarela com seus mistérios e luzes, mandando todo mundo de volta para seus veículos 4×4 e respectivos hotéis na cidade, sob pena de, logo mais, sermos dominados pela noite absolutamente negra. Conhecer os Lençóis não é passeio, é necessidade, não é descanso, é intensidade.

Restava-nos um dia e iríamos para a praia de Atins. Recomendação de amiga que admiro por não ser comum. E mandou-nos a um lugar que eu mal acreditei que existia.

Ficamos horas num 4×4, de novo chacoalhando e suando e se enchendo de expectativas. Vimos pessoas tão isoladas que podiam ser assombrações. De tanto sol na cabeça, podíamos mesmo estar assombrados. O guia nos ensinou que elas viviam ali, sós. Se tivessem uma doença leve, faziam um chá de alguma planta e saravam. Se tivessem algo grave, morriam. Assim tão simples. Vimos também um rebanho de cabras, algumas ovelhas. Dura a vida dos bichos livres, mas, se optassem, jamais seriam felizes num apartamento duplex com ar condicionado.

Paramos em um restaurante para encomendar a comida, que serviriam na nossa volta. Mais um pouco de trilha no deserto e chegamos à tal praia. Atins era o que eu imaginava ser a paisagem da Lua. Não sabia que existia uma praia daquele tamanho no mundo, que dirá num esconderijo do meu próprio país.

Não me lembro agora de lugar que tenha me surpreendido tanto. Tanta lindeza, ali sozinha, selvagem, banhada pela correnteza do mar disfarçado de lagoa infinita.

Os outros podem não ter percebido, mas quando descemos do pau de arara, ficamos todos juntinhos, até o guia falar “vão, podem ir andar, ficaremos aqui por quase uma hora”. Por alguns segundos ficamos desconcertados com tanta imensidão, tímidos como a criança que, de repente, vê uma loja de brinquedos e doces só para ela.

Ao final de Atins, a comida nos esperava. Era farta e deliciosa e então selvagens éramos nós, de tanta fome. E por piedade, o restaurante ainda oferecia algumas redes para que nos entregássemos ao mais puro pecado da preguiça.

Arrancar um viajante dessa paisagem e jogar de volta na cidade grande devia ser crime. Mas o fato é que devíamos regressar cada qual ao seu fim de mundo verdadeiro e nessa noite dormiríamos na capital, São Luís.

Ainda faltava uma lição: das profundezas da sua sábia simplicidade, Sr. Carlos, o motorista que nos levou ao aeroporto, foi nos contando da sua vida em Bacurituba. Disse-nos que não era de briga e que ele e seus 25 irmãos eram muito bem controlados por um pai severo, mas que jamais levantava a voz. Nenhum filho se metia em confusão. Pregava a serenidade e concluiu seus ensinamentos gracejando que os covardes vivem muitos anos.

Agradeço ao Maranhão por nos dar tanto de sua riqueza oposta ao que estamos acostumados. Da suposta miséria de Barreirinhas, trouxe mais tesouros do que nunca.

 

(1) os traslados SLZ-Barreirinhas-SLZ podem ser contratados com gentil e bem informado motorista Jadiel (098) 99172-3962

(2) Na SPEcoturismo, procure pelo esperto Wenderson (098) 99149-4666

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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