ANDORRA. Esqui. E nada de saco preto!

Da primeira vez que Andorra esteve nos meus planos, era só turismo.

Nada de esquiar. Apesar do gosto por patins, motocicletas e outras maluquices, nunca tinha me ocorrido escorregar por uma montanha cheia de neve, pedras e árvores, ainda que eu estivesse protegida por equipamentos pesados e caros.

Recentemente, mesmo sabendo que talvez fosse tarde demais pra aprender um esporte radical e que eu podia voltar pra casa num saco preto, a curiosidade nascida da oportunidade acabou me pondo em Andorra, à beira de uma pista branquinha, fofa, linda e assustadora.

Assim que vi o tamanho do problema, me arrependi de ter aceitado o convite de quem já esquiava muito bem e há muito tempo. Além de estar apavorada com a coisa em si, ocorreu-me que eu só ia atrapalhar. Levar-me para a montanha seria incômodo e limitante como criança no supermercado. Mas o fato é que eu já estava lá e, tirando esquiar, não havia muito o que fazer.

Paguei quase uma córnea pela minha primeira aula, pensando que era basicamente a mesma coisa que academia (onde a gente paga para sofrer e se machucar). Passei pela provação de arrumar botas que protegessem meus dois pés, cada qual com seu problema. Saí andando com elas, só pensando no saco preto. Ao primeiro escorregão,  antes mesmo de chegar ao portal do desafio, derrubei meu par. E fiquei bem ali parada, de pé, olhando minha primeira vítima, justo quem me levara até ali e o único braço no qual eu poderia me agarrar. Notem bem: era o primeiríssimo tudo, o antes de tudo, o tudo ou nada e eu já fazia estrago. Eu nem estava na pista ainda, só tentava andar pela rua gelada. Não podia acabar bem. Era saco preto na certa. Eu não sabia se rezava, chorava ou fugia.

Sou uma mulher, porém, não um rato.

Tampouco um rato das neves, é certo. Carregando os esquis, o capacete, os óculos, as luvas, os bastões e sei lá eu mais o que que me ocupava e confundia, levei uma hora para chegar à pista dos bebês aprendizes. Tanto esforço para ver as criancinhas (outras, não as do supermercado) passando por mim firmes e fortes enquanto os meus joelhos adultos tremiam.

Caí poucas vezes e derrubei meu par só mais uma. Ele parecia paciente, resiliente e dava até um sorriso de vez em quando. Podia ser motivacional, mas acho que era de nervoso. Depois do almoço, eu só queria ir embora, mas como já tinha pago a aula, não tive coragem. Além do fracasso, prejuízo financeiro? Jamais.

Encontrei com a Carol, uma graça de instrutora inglesa disposta a me fazer esquiar feliz. Meiga como uma mãe, abriu minha gola ao perceber que, aterrorizada, eu suava em bicas. Depois me acalmou, explicou o que íamos fazer, jurou que não ia me deixar bater a cabeça numa árvore e, enfim, me fez escorregar morro abaixo e subir morro acima mais de mil vezes.  Sobrevivi sem mais incidentes, voltei inteira ao hotel e dormi feito uma pedra naquela noite.

No dia seguinte, teria aula cedo.

No café da manhã, comi feito uma estivadora, torcendo para ter uma congestão e ir para o hospital antes mesmo de esquiar. Nada. Eu estava ótima. Sem dor alguma e, no fundo (bem no fundo), estava louca para subir a montanha, o que não significou que seria fácil.

Bem que tentei chegar esquiando à escola, mas foram duas tentativas e dois fracassos. Eu não parava em pé, mal conseguia segurar os esquis, o capacete apertava, os óculos embaçavam, os bastões caiam e eu também. Tive um chilique, joguei tudo no chão, falei uns palavrões, queria matar uma criancinha, a primeira que passasse serelepe por mim. Meu par me olhava como se eu estivesse possuída e me tratou como tal: à distância segura, pelo tempo que fosse necessário. Largou-me com a instrutora, avisou-a que eu estava perigosa e desapareceu.

Passada a síncope do tormento, veio a segunda aula e foi diferente. A gentil Carol me ensinou teoria e técnica, antes de me mandar à prática. Deu-me a segurança do controle, ainda que primitivo e pouco desafiador. No meu ritmo, levou-me ao segunda estágio e eu me vi, subitamente, esquiando. Eu podia demorar, mas ia conseguir. Naquela tarde de sábado, quando meu par voltou (nunca vou saber se voltou porque quis ou porque tínhamos combinado), eu sorria enquanto deslizava e conseguia até desviar das criancinhas. Eu continuava na pista dos bebês, mas pelo menos já parecia um pouco melhor que eles.

Como reconhecimento, meu par me trouxe, durante o jantar, o objeto de um pequeno furto dos enfeites da mesa: um simpático patinho glaceado. O gosto era duvidoso, mas depois de um dia de tanto esforço, um patinho de brinquedo era a surpresa mais delicada deste mundo!

 

Domingo trouxe neve, muita neve caindo do céu. Fazia anos que eu não via esse espetáculo ao vivo e, em vez de esquiar, fomos andar pelo vilarejo e desfrutar da paisagem coberta de branco.

Almoçamos em deliciosa paz, lembrei-me do meu avô Antonio quando vi um prato que parecia com os dele. Em alguns momentos da caminhada, pude parar e ouvir o característico silêncio da alva natureza. Um clima assim, tão especial, concreta e metaforicamente, assossegou meus sentimentos em relação àquele desafio do qual restava apenas um dia.

Terceira aula.

Tive que abrir mão da Carol, que estava de folga naquele dia – e não era por minha causa! Aproveitei para praticar meu espanhol com a nova instrutora que, por sua vez, me pegou do segundo estágio e mandou logo pro próximo, sem nenhuma piedade. Peguei-me deslizando e depois subindo pelos “meios mecânicos”  – o nome que os esquiadores, mesmo principiantes, dão para os lúdicos teleféricos – para deslizar ainda mais. A neve do dia anterior estava debaixo dos nossos pés, perfeita, fofa, seca e limpa. Desta vez, quando meu par chegou, eu estava eufórica. Subimos e descemos mais algumas vezes, rindo muito e caindo pouco, para, logo mais, concluirmos que estávamos exaustos. Ele, porque esquiava de verdade e eu, porque, afinal, queria aprender de verdade.

Finda a minha primeira temporada de esqui, então, voltei segura para casa, nada de saco preto! certa de que tenho outra atividade nos meus planos futuros de viagem. Sou obrigada a admitir que adorei a experiência. Tudo como me foi dito. Contato com a vasta e belíssima natureza, demanda física, ambiente acolhedor aos finais de tarde, noites tranquilas. Meu par ofereceu sempre apoio incondicional, mas teve suas aventuras limitadas e nenhuma companhia para as pistas dos crescidos. Espero que tenha alcançado minha alegria, ao final, quando vi que um dia poderei ir mais longe.

Quem sabe o que reserva a próxima, em Matterhorn, Aspen, Chamonix…?

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>