Projeto Viver

Estamos em pleno outono e os dias estão simplesmente maravilhosos.

Faz muito frio pela manhã, o ar está seco e pode-se ver a lua suave, quase imperceptível, por grande parte do dia, enquanto o sol não se lembra, ele próprio, que é rei.

As noites tem sido estreladas e então ela, crescente, é absolutamente soberana.

Tenho ouvido solos de violoncelo, enquanto vou bebericando meu vinho e olhando o a improvável lareira. Desfruto de tudo isso sozinha, pensando na constante impermanência que nos obriga a dançar por entre os diferentes sons de cada dia, a respirar os aromas de cada tempo.

Mesmo Nietzsche sendo meu preferido de sempre, andei lendo Jung, porque me disseram que é importante conhecer. Li sobre a escuridão de cada um e sobre a necessidade de sentir a nossa própria.

Não deve haver momento mais propício para tanto, no curso da etérea vida, do que aquele em que nos pegamos a pensar, só a pensar.

A viagem de agora é Viver.

Viver a mudança, as pessoas amigas e as inevitáveis, viver o amor e o arco-íris dos dias e das noites; os mapas, os planos. Girar o globo de brinquedo e perceber que há tanto, ainda, a descobrir e, mais importante, tanto legado a deixar.

Estive com alguém que me comparou às plantas do jardim. Foi uma piada, depois adotei-a como início da jornada às minhas trevas interiores.

Que não pensem nada disso como algo mau, ou sombrio, ou depressivo.

Jamais!

Ao contrário, é momento necessário, que nos faz nadar na água gelada quando só o que se tinha antes era medo do frio, mesmo quando se sabe o suficiente para prever que o frio é só mais um dos tantos desafios.

Um crânio cheio de experiências é um baú de tesouros e deve estar aberto a quem quiser dessa riqueza. Nós, pobres humanos, somos treinados desde cedo a ver a beleza das coisas, mas não a procurar pela beleza que as coisas escondem; para isso, geralmente precisamos de ajuda.

“Navegar é preciso”

Viajar. Viver para contar. Ajudar a achar a beleza. Descobrir o perfume do próprio tempo.

Descobrir Pompeu, Petrarca e Pessoa. Nietzche, Botton, Jung e Wordsworth. Esse nome, seria coincidência? Como valem suas palavras!

Há na nossa existência lugares do tempo,
Que preservam em clara permanência
Uma virtude que renova…
Que nos penetra e faz subir mais alto
Quando é alto que estamos, e caídos nos levanta

William Wordsworth “The Prelude XII” (1805)

 

 

 

 

Comments
  1. 146 dias ago

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