Lições das Alagoas

Não são as coisas.

São pessoas, lugares e acontecimentos que nos preenchem e nos despertam para o que realmente importa na vida.

São Miguel dos Milagres é um lugar habitado por pessoas que fazem pouco acontecer, mas, desse pouco, o muito de viver.

Muita beleza. Qualquer guia de turismo fica fácil se o objetivo for a linda natureza. A Praia do Marceneiro, indicada pelo dono da pousada que nos hospedou, é cenário de filme independente. Quase intocada, areias livres de pegadas e mar de espelho cuja única imagem é do solitário pescador, equilibrando-se em sua jangada rudimentar a caminho do peixe do dia ou da noite, quem sabe.

Quase pedi licença à Iemanjá para entrar em suas águas tão cálidas e virgens para, dali, observar centenas de coqueiros a insinuarem seus frutos sobre nós. Tive a curiosidade de ir chacoalhar um coqueiro alto e fino, pensando que, com o balanço, os cocos cairiam à minha mão (já com canudinho?). Por sorte a natureza além de fértil é sábia e coqueiro nenhum se abala com dois bracinhos humanos, tendo ainda a compaixão de não deixar cair nada de lá de cima que pudesse esmagar minha vazia cabeça.

Passei então a me preocupar com minha vazia barriga e fomos a um restaurante simples, de tão simples, parecia um pouco abandonado e triste, meio escuro. Era bem recomendado, no entanto e, como todos os outros, nos encantou.

Em São Miguel dos Milagres os restaurantes trabalham com o que os pescadores trazem no dia. É quase uma surpresa.

Hoje tem caldinho de polvo. Amanhã não pescarão polvo por causa da chuva de hoje que turva a água. Então só vai ter  caldinho de sururu. Pedimos um camarão – abundante na pescaria de hoje – no abacaxi.

Foram colher o abacaxi. Muita fartura. A comida demora, mas suas porções são generosas e deliciosas.

São deixadas à mesa com um sorriso, pela garçonete que fala um português diferente do meu e vê um mundo diferente do meu. Com tanto, a cidade ainda padece de miséria.

Muita miséria. A miséria que, onde se tem de tudo, só pode vir da falta de educação. Peguei-me pensando no que faria se um dia fosse morar em São Miguel dos Milagres…

Eu poderia desfrutar de tanta beleza todos os dias, por algumas horas. Nas outras horas, eu ensinaria capricho às crianças, cuidados pessoais às mulheres, higiene ambiental aos homens. Ou algum manejo de animais, ou leitura a todos. Todos também deveriam aprender a assentar tijolos e fazer ligações elétricas seguras. E todos deveriam ler um livro importante que não fosse a Bíblia e depois continuarem sentando em suas rodas de cadeiras às calçadas para contarem o que leram e aprenderam.

Alagoas me ensinou, assim como muitas outras voltas pelo mundo, que não precisamos de muito. Aliás, geralmente temos muito, o que falta é saber o que fazer com tanto. De que adianta o mar fervilhar de peixinhos se alguém acha que uma lata de alumínio ali não faz mal algum?

Das belíssimas Alagoas trouxe a certeza de que quem sabe uma coisa sequer, deve passar adiante. Nem precisa ir para longe. Pode ser para o vizinho. Mas não deve ser inútil, ou só faremos rir de nós o coqueiro.

 

Pousada Maria Bonita

Restaurante Favoritu’s

Restaurante Porto dos Milagres

 

 

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