Belém do Pará

Desde criança, eu nutria uma curiosidade desmedida sobre a região norte do Brasil.

Primeiro, porque eu fui da época dos ” territórios”.

Nem todos os Estados eram, de fato e de direito, Estados.  Amapá e Roraima só se tornaram Estados da Federação com o advento da Constituição de 1988 (Fernando de Noronha, idem, mas esse é no Nordeste). E eu fui criança bem antes disso, na época ainda de Rondônia (1982)… e eu também já ouvia falar do Pará. Especificamente de Belém do Pará e de uma ilha maior do que muitos países pelo mundo.

Demorou, mas eu finalmente conheci o Pará. Estive recentemente na capital, Belém e eu era só ansiedade e curiosidade. Eu queria ver um rio da bacia Amazônica. Queria olhar o horizonte e imaginar que, mais um pouco, daria para ver as Guianas ou o Suriname.

Queria ver o meu Norte, assim, só porque queria. E vi. Amparada por dicas preciosas da Larissa, minha paraense colega de trabalho, conheci Belém com encanto e angústia.

O encanto esperado, da exuberância das águas, do viço do verde. Nosso Hino é preciso, nossos bosques tem mais vida. Seja pela própria natureza, seja pela mão do homem, que tão cuidadosa construiu o Mangal das Garças, para receber visitantes de diferentes raças e espécies. Lindo lugar, que nos recebeu com uma oportuna tempestade de verão de apenas alguns minutos. Abençoados e refrescados pela chuva cálida, visitantes e moradores voltaram ainda mais vívidos às suas atividades, fosse andando, voando, rastejando ou saltitando.

Também a Estação das Docas fora rejuvenescida e agora é um agradável pólo de lazer. Pudemos passear, ouvir música, comer, tomar sorvete, mas, sobretudo, contemplar as misteriosas águas escuras do Rio Guamá.

Logo adiante, porém, a angústia do Mercado Ver-o-Peso. Igualmente turístico, por ser local muito peculiar na identidade da cidade. Acredito que poucos, no entanto, percebem o sofrimento humano, a submissão às duras condições da vida impostas sabe-se lá por quem. Centenas de pessoas trabalham sob um calor desumano, abafados ainda por coberturas supostamente de proteção ao sol. Vendem de roupas a alimentos, de castanhas secas a pratos feitos, as “bóias” que podem alimentar turistas e nativos, famintos ou curiosos. Alguns descansam sob as barracas, outros, sobre elas, mais próximos  ainda da tampa quente dessa grande panela que é o Mercado.

Ainda bem que tem gente disposta a ajudar. Tive o prazer de receber, no hotel, a visita da chef Morena Leite, que faz um trabalho mais que lindo com essa turma, oferecendo profissionalização e aculturamento sobre gastronomia e manipulação de alimentos (1). Sem entrar na esfera sócio-política-educacional, segui meu caminho de descobertas, rumo à Ilha do Combu.

Querer, querer mesmo, eu queria ver os búfalos na Ilha de Marajó (aquela, maior que a Bélgica, por exemplo). Mas descobri tarde demais que a viagem é longa e requer mais planejamento do que eu pensava. Eu devia saber que não daria para pegar um metrô ou um Uber. Mas minha cabeça da cidade não estava habituada à vida naquele tipo de Norte e tive que me contentar com a ilha aonde chegamos num barco-ônibus.

Combu é só lazer. Uma travessia de não mais de quinze minutos e chegamos ao local de dezenas de restaurantes para todos os gostos e bolsos, servindo peixe e outras iguarias locais. Tudo meio improvisado e bagunçado, os próprios clientes arrumam suas mesas, se virando pra conseguir quantas cadeiras precisarem. Ninguém se importa, parece que ali é assim. O extenso cardápio e o aviso do esbaforido garçon de que “vai demorar”nos deixa desconfiados de que algo vai sair errado. Pedimos, nos distrairmos com a cerveja e os banhos a partir dos canos d’água instalados nos arredores (como eu já disse, é um tipo de calor inimaginável), esperamos, esperamos e no fim nos foi servido um caldeirão da deliciosa comida paraense. Sem serviço. Nós nos viramos com os pratos, garfos, conchas, o que fosse. Mas que ninguém se preocupou com isso, é fato. Só nos concentramos em acabar com aquela refeição toda, como se não houvesse amanhã. Paramos de comer um segundo antes de explodir, ou nosso amanhã não chegaria mesmo.

Ainda nos aventuramos a mais um trecho de barco, para conhecer a  Dona Nena, semi-escondida num igarapé da ilha, cuja lojinha é uma tímida amostra do porquê o Pará é responsável por quase 30% da produção cacaueira do Brasil. Lambendo os dedos do chocolate derretido (lembrando: faz calor!), era hora de ir embora da ilha, que só aguçou minha curiosidade.

O Norte é diferente. Preciso conhecer Marajó, pensei. Logo volto.

Dia seguinte, segunda-feira, fomos pegos pela surpresa de que todos os museus e atrativos afins da cidade estão fechados. Até a igreja estava fechada. Ainda temos muito a desenvolver neste sofrido país, é claro.

Sendo assim, optamos por lagartear à beira da piscina do Atrium Hotel Quinta das Pedras, que, aliás, merece créditos pela bonita restauração do edifício histórico na Cidade Velha.

Diz o brasileiro que no fim dá tudo certo. E deu mesmo.

 

(1) conheça mais sobre ela e seu trabalho: www.morenaleite.com.br / www.gruposagrado.com.br

 

 

Comments
  1. 29 dias ago

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