República Tcheca, um rio e um lago.

De todas as surpresas que tive em “replays”, talvez Praga tenha sido a mais marcante.

Entre o novo e o familiar, teve ansiedade, alegria e surpresa: viajar é sempre aprendizado. Eu estava experimentando, na segunda visita, uma cidade tão diferente daquela que vi pela primeira vez! Nem sei precisar o quanto eu mesma mudara, se minhas expectativas ou experiências, companhias, momento ou clima seriam os verdadeiros responsáveis por tanta mudança.

Há alguns anos eu estava lá em pleno inverno e magníficas praças enfeitadas de Natal. Agora sentia um calor inacreditável que me obrigava a tomar Coca-Cola (que eu detesto) e desestimulava a comer um trdelník (algo entre pão doce e rocambole assado, servido ainda quente). Suava só de pensar.

Nessas temperaturas, o Rio Moldau tinha um apelo próprio.

E tinha também o museu de Bedrich Smetana, cuja existência eu desconhecia até pouco tempo.

Ali fora a casa do compositor do ciclo sinfônico “Minha Pátria” com uma parte dedicada justamente ao rio, que podia ser visto pela janela.

Foi muito emocionante estar onde ele estivera e ver a paisagem que ele vira. Soprava uma brisa fresca que agitava de leve as cortinas bem arranjadas. Fiquei me perguntado se foi um momento como aquele que inspirara o coração do músico.

Praga estava lindíssima, exuberante, acolhedora para moradores e  turistas de todos os cantos do mundo. O Rio Moldau seguia seu curso e eu estava infinitamente feliz por estar ali, seguindo o meu.

E eu seguiria ainda para Kutná Hora, pequena cidade que teve seu auge de relevância e poder por conta da mineração da prata em meados do século X. Muitos turistas vão até lá nos dias de hoje para visitar a sinistra Capela dos Ossos. Ela pode ter lá seu encanto, mas eu (assim como outrora em Évora), só vi o assombro das almas cujos ossos enfrentam o mundo ainda insepultos.

Em toda a cidade há lindas construções e paisagens, tudo parecendo intocado pelo tempo, ainda cheio de mistérios. Fiz todo o percurso que qualquer turista faria e desfrutei ainda de demorado café numa esquina qualquer, ao ar livre, emoldurada por oportuna sombra e com vista para a fonte gótica.

Quando saí de lá para voltar a realidade do aeroporto, nem imaginava que o melhor ainda viria, para provar minha tese de que o simples é sempre bom.

Entre Kutná Hora e Praga, só estradas boas e vistas inspiradoras. Placas de monumentos e atrações turísticas das mais variadas. Livre e com tempo sobrando, acabei me vendo um pouco perdida ao seguir a indicação de um mosteiro.

O caminho ia estreitando e, o asfalto, sumindo.

Até que me deparei com um pequeno lago. Nada mais que um pequeno açude, é verdade.

Cercado de verde, apenas árvores, vegetação nativa,  culturas rudimentares, alguns distantes ruídos de bichos, mas nada ao alcance da visão.  Tudo ali era só silêncio e paz. Nenhum turista, nenhum curioso, nenhum carro. Nada.

Era o lugar perfeito para viver um momento sublime. Algo assim, tão fugaz e pleno,  não pode ser obra do mero acaso. Um laguinho, o cheiro da terra, os braços da natureza, os segredos das memórias.

E a República Tcheca passou, por conta desses instantes, a uma lista especialíssima das minhas experiências de vida e viagem.

Comments
  1. 76 dias ago

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