O que aprendemos quando viajamos?

Sobre viajar:

 

“Vivemos afogados em conselhos que nos prescrevem os lugares até onde deveríamos viajar; mas muito pouco nos é dito sobre o porquê… “(*)

 

Conheço pessoas que não gostam, e respeito. Das  que declaram gostar, tenho curiosidade imediata e me ocorre sempre perguntar o porquê. Quero saber o que lhes move, o que lhes faz enfrentar as malas, o trânsito, o ônibus, navio ou avião. A comida diferente. Os idiomas, as formas de pensar.

Mais ainda, quero saber o que buscam aprender.

Os ribeirinhos do Amazonas, as senhoras elegantes de Paris, o  meu vizinho da cidade. Todos eles são um livro de si mesmos e podem se abrir e ensinar o que tem dentro deles. Ensinam por vezes em outro idioma, a partir de outro ponto de vista, com base em experiências diversas das nossas.

A sabedoria que nasce daí é genuína, sólida e indelével. Se mudar as coisas de lugar nos armários previne Alzheimer, que dirá mudar o tráfego de lado. Olhar do lado contrário para atravessar uma rua inglesa exige esforço mental extra. Agradecer em russo também. Seja para um curioso turista ou para um atarefado executivo, viagens são sessões de fisioterapia para o cérebro.

Viajar ensina coragem, resiliência, tolerância  e tudo o mais que está na moda: inovação (é preciso sair do sofá para descobrir o mundo), planejamento estratégico (do rascunho à execução), compliance (porque seja turista ou expatriado, todos tem medo de serem parados pela polícia e não conseguirem acionar o seguro).

Mas as lições que mais me chamam a atenção são aquelas sobre relacionamentos, e não estou falando de flertes em Miami ou na Toscana!

Pensemos em quantas vezes já brigamos com alguém numa viagem, só por conta da escolha do roteiro do dia. Um quer ver a torre, outro quer ver o dragão e ninguém pára para pensar que torre e dragão geralmente ficam no mesmo lugar.

Profissionalmente, quantas vezes estivemos numa reunião em idioma estrangeiro, entendendo tudo (da língua), até alguém falar nosso nome, e de repente percebemos que não estávamos entendendo é nada (dos costumes).

Ou pior, nos arrumamos todos para o jantar da Companhia anfitriã e, quando chegamos, percebemos que ninguém naquele país se veste como nós para o jantar. Ou, ainda, aprender com a garçonete, que, só porque está descalço, não significa que pode ir descalço até o banheiro. Faça isso no Japão e será doce, mas severamente instruído a voltar para sua mesa e pedir pelo chinelinho que você nem sabia que existia.

Os lugares são lindos, mas as possibilidades sociais, interpessoais ou interculturais compõem nosso estado de espírito, forçam a reflexão, o autoconhecimento, a adaptação e terminam por oferecer as páginas mais interessantes dos cadernos de viagens.

 

 

 

 

 

 

 

(*) Alain de Botton, A Arte de Viajar

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