Bahia da virada: onde é a praia?

Ao final de 2018, sentenciei que um português não deve ir embora do Brasil sem antes passar um réveillon na Bahia.

Avisei o europeu que era quente, mas muito quente mesmo, talvez desumano, mas, ainda assim, uma experiência imperdível. Nessa época, as belezas da minha preferida região de Ilhéus são caríssimas, de explorar o turista e não o turismo, uma pena. Optamos então pela capital, menos paradisíaca, mas que oferece a segunda maior festa do Brasil, perdendo apenas para o Rio de Janeiro.

Iríamos, Paulo, Laura e eu, para Salvador. A mais pura tradição do que é passar calor no verão brasileiro. Paulo teria chance de se vingar de mim mais tarde, no frio da sua terra natal (depois eu conto essa).

Na Bahia, éramos nós e a roupa do corpo, essa também muito pouca, quanto menos melhor, aliás, bastando usar protetor solar fator industrial. O sol da Bahia não é para os fracos. A música da Bahia não é para os fracos. A Bahia, definitivamente, não é para os fracos.

E sendo assim, que me perdoem o trocadilho, começamos pela Praia do Forte, sempre badalada e acolhedora, com seus restaurantes e lojinhas e, principalmente, pelo Projeto Tamar, cujas tartarugas protegidas fazem o encanto da Laura.

Nos próximos dias, desbravando locais e buscando destinos ainda não visitados, aportamos num recanto qualquer próximo de Arembepe, menos famosa que a Praia do Forte mas igualmente acolhedora com suas areias quentes e cervejas geladas.

Amparados também pelos indefectíveis chinelos de dedos, fundamentais para quem não quer um casco queimado de jacaré idoso nos pés, estacionamos nosso alugado carro popular numa viela qualquer, já perdidos entre o mar e o mundo, de tantas voltas desobedecendo o GPS.

Percebemos que a tal viela podia ser qualquer uma, já que nenhuma tinha nome e que, ao final do passeio, não acharíamos o carro nunca mais. Fotografamos o lugar para buscar depois, torcendo para que nossas capacidades cognitivas não fossem todas liquefeitas pelo implacável dia de verão bahiano.

Só até aí já era bastante aventura. Tanto fizemos que não sabíamos de que lado ficava a praia, afinal. Éramos obviamente forasteiros e não hesitamos em perguntar ao serelepe moleque nativo “onde é a praia?”.

Desse momento em diante e nos curtos minutos que nos levaram até a água, dediquei-me ao meu apreciado exercício de analisar os humanos em seus contextos.

O garoto, imbuído da responsabilidade de pôr uma família de turistas nas areias da sua terra, franziu o cenho e disse “por aqui” fazendo aquele sinal universal de “sigam-me”. Andava apressado por entre as casinhas muito próximas entre si. Pequenos becos, estreitos e subitamente escuros a despeito do sol que brilhava no céu e fritava a vida na terra. Nós, escaldadas brasileiras, tivemos até algum medo. O menino corria pelos corredores e nós corríamos atrás, coladas aos calcanhares do nosso valente português, cujo único medo era de não encontrar cerveja gelada o bastante.

Ao fim desses breves caminhos, eu vi o mar. Como se nunca tivesse visto aquilo, deu-me uma surpresa infantil e gritei “olha a praia aqui!”. O menino era o mais satisfeito do grupo. Ele conseguira transformar aqueles incautos visitantes em satisfeitos turistas. Uma tarefa tão simples e, ainda assim, tão respeitável. Devia estar pensando “viram, seus tontos, como era fácil?”, mas limitou-se, na sua inocência, a nos dar um sorriso fraternal do tamanho de um pires.

Nós três estávamos entregues ao mar da Bahia. Nós todos tínhamos cumprido um objetivo.

E eu, que adoro filosofia turística, só precisava de um pouco mais de sol na cabeça pra romantizar e eternizar momento tão prosaico.

E se você leitor, estiver um pouco desalinhado dos seus objetivos, vá para o verão da Bahia. Não importa quais sejam, eles nunca mais serão os mesmos.

Boa praia!

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