Islândia, o país 38

Aos 20 anos, meu objetivo era conhecer vinte países. Eu ainda não sabia que investiria tempo repetindo alguns deles.

Aos 30 anos eu já andava com mais aniversários do que carimbos nos passaportes e portanto, apressei-me em conhecer o mundo mas, então, já sabendo que a familiaridade também me fazia feliz, deixei de contar e passei a voltar. Passei a olhar com novos olhos, investir outro tipo de tempo.

Mas chamou-me a atenção o número 38 da minha lista. Por nenhum motivo especial, ou, talvez, porque fazia tempo que um país “novo” não me despertava tanta curiosidade. A Islândia é tão única, tão distante dos brasileiros (não só pela geografia), tão pouco habitada, tão pouco explorada. Foi o 38º país que conheci.

Vou contar sobre ele desde os primeiros planejamentos. E mais tarde explico o porque da contagem, agora, depois de tantos.

Estava quase voltando à Patagônia, no extremo sul do mundo, o que faria com enorme prazer. Um dia me disseram que a Patagônia seria perfeita com “uma mulher como eu” e nunca entendi muito bem o que isso significava. Se era o fim do mundo (talvez pra me largar lá? ora, eu voltaria andando!), se era a aventura, se éramos ambas selvagens, misteriosas e encantadoras (gosto dessa tese)…nunca vou saber, mas até hoje não voltei la, nem sozinha nem com ninguém.

De um canto ao outro, como sabem, na minha cabeça é um pulinho. Surgiu a Islândia no mapa e ela me parecia distante e fria o bastante para despertar meu fogo interno da curiosidade de “uma mulher como eu”, o gosto pela alva neve, a perspectiva de ficar aprisionada pela fúria da natureza, onde a prisão é um hotel com lareira e portas corta-vento. E seria o país de número 38, faltando apenas dois para meu objetivo final-depois-disso-o-que-vier-é-lucro.

Eleito o destino, passemos à logística de como chegar lá. Eu já estava na Europa, o que facilitou em pelo menos doze horas a minha jornada. Porque mesmo dali, a Islândia é longe. Quase cinco horas de vôo pela Norwegian, partindo de Madrid. Vôo direto, no padrão low-cost: pouco espaço e se quiser comer ou beber a bordo, tem que pagar. Se quiser levar muita mala, também tem que pagar por elas como se fossem filhos. Eu tinha apenas um lanche, um chocolate, uma calça para neve e roupas de baixo. Todo o resto já  ia no corpo e, assim, a mala de bordo grátis estava garantida.

Neste ponto, tenho uma observação: prepare-se para os controles de segurança. Se você deixar para tirar o casaco, o gorro, as luvas, as botas, guardar o passaporte, o celular, fechar a bolsa e arrumar tudo na bandeja quando chegar a sua vez na fila…todo mundo atrás de você vai lhe odiar para sempre. Leve uma sacola plástica no bolso, enfie tudo lá, tire o casaco com antecedência, afrouxe as botas. Não brigue com o segurança, ele está lá para garantir que ninguém embarque com uma granada, como ele pode saber que você é bonzinho se não colabora?

Continuemos, rumo à Islândia.

O aeroporto é quente.

As pessoas falam inglês fluentemente, as coisas funcionam bem, o desembarque e a sinalização são bem organizados. Alugamos um carro comum (um Hyundai i20) e saímos para o estacionamento.

O país é frio.

O vento é inacreditável. O chão, coberto de gelo, é escorregadio. Pensei “o que estou fazendo aqui? em dois minutos, já não sinto meu nariz tropical”.

Levei algum tempo para descobrir o que estava fazendo ali. Depois de descongelar os vidros do carro, saímos para um país totalmente branco, de um branco que meus olhos nunca tinham visto. Não era a neve em si, era a imensidão do branco, o branco a perder de vista. Sem montanhas, sem matas, só o branco, branco, branco, para todo lado.

Chegamos à cidade de Reykjavik e ela também era coberta de branco e açoitada pelo vento. Com o primeiro escorregão no gelo urbano, fiquei pensando em Salvador da Bahia e na conexão entre fritar os pés na areia e se equilibrar no gelo para não cair e quebrar um osso. O mundo é mesmo muito rico.

A vista de Reykjavik é linda de qualquer ângulo. Todas as dicas de todos os guias de turismo são boas e as minhas provavelmente não acrescentarão nada. O que trouxe da Islândia foram minhas próprias descobertas, como sempre.

A começar pelo gêiser. Lia sobre ele ainda na infância, acho que até num gibi do Mickey do século passado. Mas nada me preparou, de verdade, para ver um jorro de água fervendo saindo abruptamente das entranhas da terra, formando uma base azul e exalando cheiro de enxofre. Depois desse momento,  eu podia ter ido embora da Islândia porque já estava saciada. Talvez eu não tenha palavras para contar ao leitor o que me passou pela mente ao ver meu primeiro gêiser. Foi a sensação de estar no lugar certo, na hora certa, mesmo tão longe de tudo que me é familiar. Eu teria ficado tanto tempo ali, teria quase virado um picolé humano, para ver o sal da terra espirrando para fora mais e mais vezes. Mas fui embora depois de 2 ou 3 apresentações da mãe-natureza.

Seguimos para Kirkjubaejarklaustur, um vilarejo cujo nome não cabe em sua superfície.

Vimos o glaciar Vatnajökull. Encantei-me com os diamantes de gelo de Jökulsarlon boiando na água do mar.

Vimos as areias negras de Reynisfjara

Vimos ainda a aurora-boreal. Sou grata ao recepcionista do hotel, por ter me avisado que ela era branca e só ficava verde nas fotos e ao Paulo, que enfiou o carro na neve até o meio dos pneus, correndo o risco dele mesmo ter que nos tirar dali mais tarde, do meio do nada, apenas para não perdermos o momento.

Senti o vento e o frio islandeses vários dias. Apercebi-me do isolamento em que me encontrava, afinal, a Islândia é uma ilha e somos todos ilhas em nós mesmos, quando queremos.

A essa altura, já cansada do gelo que me cercava, não pude evitar pensar no que levaria da Islândia, além dos ímãs de geladeira e colheres de lembranças.

Pois levaria o som do vento pesado de branco, o cheiro do enxofre que recheia meu planeta, o sabor das sopas no pão que eram servidas em qualquer restaurante.

E fechando a viagem, parei num café com uma pequena biblioteca, onde encontrei dois livros que me chamaram a atenção. Um sobre as casas de turfas, à falta de madeira como matéria prima no país, e outro, sobre a constituinte islandesa, como prova da teoria da necessidade de iniciativa em tempos de crises. Devia ter comprado os dois, mas talvez eu tenha, de propósito, deixado para a próxima.

Já a caminho do aeroporto, era perceptível a mudança da cor da vida, por conta da neve escoando sob o sol tímido. A Islândia ia ficando marrom, para receber um verde futuro.

De volta à Madrid, tive a sensação de ter vivido um hiato de realidade, uma experiência tão única que se transforma em dúvida entre sonho e fato.

Felizmente, fotografei.

 

 

 

 

 

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